Archive for the ‘Shows’ Category

Elza Soares, ou melhor, Doutora Elza Soares, definitivamente uma das maiores artistas da nossa época, passou com sua turnê Deus é Mulher pelo Opinião, em Porto Alegre, no último sábado, 25 de maio.

Depois de dois anos sem se apresentar em Porto Alegre, a Voz do Milênio (eleita pela BBC de Londres) cantou as músicas do seu disco mais recente, o elogiadíssimo Deus é Mulher, e sucessos que traz ao longo de toda a sua carreira.

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Elza e banda, sob forte aplauso, ao final do show (Foto: Carol Govari Nunes)

Uma banda excelente acompanha Elza nessa turnê, que tem direção musical de Guilherme Kastrup (também é o baterista da banda). Além de Guilherme, vemos no palco Rodrigo Campos (guitarra e cavaco), Rafa Barreto (guitarra e Synth), Luque Barros (baixo e synth), Da Lua (percussões) e Rubi (vocais). Na verdade, essa banda não “acompanha”, somente, Elza; essa banda faz um show que preenche todo o ambiente: é vivo, pulsante, uma delícia de assistir. E sentada em seu trono, tal qual a rainha que é, Elza Soares emociona tanto que eu nem encontro adjetivos suficientes para explicar.

Vê-la ao vivo, cantando com aquela voz inconfundível, é um privilégio. Para além de sua voz excepcional, a presença de Elza no Opinião foi marcada pela força, garra, gentileza, generosidade, humildade e gratidão que a cantora transpira.

Sob aplausos e gritos constantes da plateia, que entoava repetidamente “Doutora! Doutora! Doutora!”, título que recebeu no domingo, 26, na UFRGS, por sua relevância artística e também por causa de sua vida pública no combate ao racismo e à promoção da cultura afro-brasileira – este foi o primeiro título de Doutora Honoris Causa concedido a um músico pela universidade, vale lembrar –, Elza defendeu os professores, as universidades públicas, falou do direito à educação e de como a educação transforma vidas. Um show político e extremamente necessário dentro do contexto em que nos encontramos.

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Elza Soares – Deus é Mulher (Foto: Carol Govari Nunes)

Elza falou também de sua relação de amor com a cidade e com o amigo Lupicínio Rodrigues, que a trouxe para Porto Alegre para fazer o primeiro show profissional de sua carreira. Além do amor por Porto Alegre e por seu povo, falou da necessidade do amor em tempos de ódio, contagiando o público (super diverso em gênero, raça e idade), que a respondia fervorosamente em todos os momentos.

Com seu disco anterior, A Mulher do Fim do Mundo, que lhe rendeu um Grammy Latino de melhor álbum de música popular brasileira, Elza se conectou com um público novo, virtual, necessitado de referência e representatividade. Hoje, com seus quase 70 anos de carreira, a artista, com o disco Deus é Mulher, reforçou seu lugar de fala e atinge cada fez mais todas as faixas etárias – consolidando-se como porta-voz de um povo faminto por discursos coerentes e letras que falem sobre o empoderamento da mulher, a força dos negros, o direito das minorias; letras que falem sobre dar, comer, denunciar, gritar; letras que são puro sentimento e verdade quando saem de sua boca.

 

Elza Soares, a neta e bisneta de escravas, a mulher, mãe, a encaixotadora, a cantora, aquela que não foi levada à sério, aquela que, entre deboches e risadas, respondeu que veio do “planeta fome”, a artista gigantesca, a ativista, a mulher do fim do mundo, a voz do milênio, a doutora honoris causa: que privilégio vê-la ali, diante de mim, cantando ao vivo. Obrigada, Elza.

 

 

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Antes tarde do que muito mais tarde, resolvi fazer um resumão de todos os shows que vi durante os 6 meses que passei em Montreal (3 shows – The Interrupters, Rat Boy e Masked Intruder – vi em Quebec City, e outros 2 shows – The Creepshow e Quinzelle – foram em Ottawa).

Os que já estão publicados aqui no blog são aqueles em que fui credenciada como imprensa; os outros, como não encontrei tempo para escrever e postar (atividades, prazos e relatórios do doutorado-sanduíche, sabem como é), vou escrever rapidamente neste post. A ideia é fazer um registro, mesmo, apenas uma lista com links para as bandas, caso alguém tenha interesse em ouvir. Dos shows que mais me impressionaram, vou fazer alguns comentários – nada muito crítico ou aprofundado.

Vale lembrar que Montreal é uma cidade conhecida por seus festivais de música. Além dos festivais, é uma cidade onde rolam dezenas de shows absolutamente t-o-d-o-s os dias. Eu passei o inverno lá – quando teoricamente qualquer cidade dá uma hibernada e, afinal, peguei temperaturas de -30ºC (feels like -35ºC) –, e mesmo assim tive que escolher no que não ir. E no início de 2019 precisei focar em todas as chamadas de artigos e eventos científicos, então não consegui ver nada durante janeiro e fevereiro.

Por uma questão de ordem, vou listar todos os shows, e os que já estão postados, vou colar o link para o texto 😊

2018

10 de novembro: Stiff Little Fingers (abertura: The Mahones)

22, 23 e 24 de novembro: Montreal Ska Festival com Danny Rebel & The KGB, The Hangers, Foolish, The Planet Smashers, The Dreadnoughts, The Sentries, Rub-a-Dub Rebels, The Void Union, The Peelers e The Classy Wrecks.

8 de dezembro: K-Man & The 45s, Sprankton, The Slums, The Cardboard Crowns

13 de dezembro: The Lef7overs, Lousy Riders, Muffler Crunch e Nightwiches. Ponto alto, na minha opinião, para The Lef7overs, que pude ver novamente em 22/03/19, e Muffler Crunch, um duo pesadíssimo composto por Angie “The Barbarian” na bateria/voz e Luc Lavigne (guitarra/voz). Vale pesquisar, ver vídeos – ao vivo, de preferência. Baita performance, acreditem.

2019

8 de março: Danny Rebel & KGB. Já tinha visto a banda no Montreal Ska Festival, mas neste dia, no Hurley’s Irish Pub, o som estava muito melhor. A banda é ótima, tem ótimos discos. Vale a pena procurar.

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Pixies (Foto: Carol Govari Nunes)

13 de março: Pixies e Weezer (abertura: Basement). Os shows aconteceram no Centre Bell, ginásio onde ocorrem as partidas de hóquei e também shows grande em Montreal (comporta mais de 30 mil pessoas). O show do Pixies entrou no Top 5 dos melhores shows que já vi até hoje. A banda nunca esteve entre as minhas favoritas, mas fiquei realmente impressionada com a precisão e perfeição da execução das músicas. Um show incrível. O do Weezer foi um show muito bom, em termos técnicos, mas que não me emocionou. (E talvez eu tenha ficado tão impactada com o Pixies que nem tenha conseguido dar a devida atenção ao Weezer)

15 de março: The Sentries (que eu já tinha visto no Montreal Ska Festival. É uma big band com um bom repertório e um bom show) e The Beatdown

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The Interrupters (Foto: Carol Govari Nunes)

19 de março: The Interrupters, banda de ska-punk, uma das minhas preferidas, atualmente. A abertura ficou por conta do Rat Boy e Masked Intruder. O show do The Interrupters foi ótimo, superdivertido, pra cima, como todas as músicas dos 3 discos (todos produzidos pelo Tim Armstrong e lançados pela Hellcat Records, vale apontar). Os irmãos Binova se destacam muito mais do que Aimee “Interrupter” Allen, vocalista da banda, mas é um show que funciona bem.

22 de março: Mustard Plug, PLMafia e The Let7overs

23 de março: Amanda Fucking Palmer. Bom, o texto tá todo ali, mostrando que eu fiquei de cama depois desse show. É totalmente um exagero e parece mentira: mas sim, fiquei destruída. É um texto enorme, emotivo, que eu escrevi porque precisava escrever. Hoje estou ótima, recuperada, apenas com as cicatrizes. Fazer o que, né? Alguns shows causam esse impacto em mim.  ¯\_(ツ)_/¯

26 de março: David Rourke Trio (com André Withe e Eric Lagagé) e outras duas bandas de jazz de estudantes da McGill University.

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The Creepshow (Foto: Carol Govari Nunes)

3 de abril: Concordia Jazz Students – uma jam session com duas bandas de estudantes da Concordia University. Duas vezes por semana os estudantes se reúnem para essa jam no Upstairs, um ótimo bar de jazz que tem em Montreal.

6 de abril: The Creepshow – banda de psychobilly, com ótimos discos, mas um show beeem morno (pelo menos nesse dia) e Quinzelle.

Bom, é isso 🙂

Até o próximo show – agora no Brasil.

 

Este texto não é exatamente uma resenha sobre o show da Amanda Palmer. Ok. Eu avisei.

THIS IS THE PUNK CABARET

O ano é 2009 e eu recebo uma mensagem do meu namorado no MSN: “olha isso aí, é um lance punk-cabaré, acho que tu vai curtir”. Na mensagem, tinha um link. Lembro como se fosse hoje. Um cara tocando bateria e uma guria com uma maquiagem meio circense, meio teatral, uma voz grave, uma camiseta surrada do The Who e um jeito bem nervoso de tocar piano. Cinco notas no piano e eu estava com os olhos vidrados no vídeo, sem piscar. O link era um vídeo de “Sex Changes”, ao vivo, do The Dresden Dolls. A guria era a Amanda Palmer.

THERE WILL BE NO INTERMISSION TOUR

Volta para 2019. Amanda Palmer anuncia as datas da turnê do seu novo disco solo, There Will Be No Intermission, lançado em 8 de março. Mentira. Ela anunciou no final de 2018. Eu mesma comprei o ingresso em 2018. Mas ok, volta pra 2019: o terceiro dia da turnê, que começou em Detroit, foi aqui em Montreal, mais precisamente no dia 23 de março de 2019, no Monument-National.

Ainda não sei como escrever ou organizar tudo o que aconteceu nesse show, então eu vou escrever numa tentativa de (me) organizar.

I’M NOT CRYING. YOU ARE!

Pois bem: para começo de conversa, eu não choro em shows. Eu amo shows, mas eu não choro em shows. Chorei em shows pontuais – mais precisamente 3 ou 4, os quais estão descritos em algum lugar nesse blog –, e eu também não fico nervosa para ver ou falar com algum artista. Até faço uns desafios mentais de “quais artistas me deixariam nervosa, caso eu os encontrasse” e a lista tem um total de 0 pessoas. É uma arrogância da minha parte, até; como se eu fosse (ou quisesse ser) imune a ficar desconcertada perto de alguém.

Pula para o final do show, depois de eu ter falado com a Amanda Palmer e ela ter autografado um livro que ela mesma comprou num sebo aqui em Montreal – alternativa após ter ficado sem merch no segundo dia da turnê, em Toronto. Meu namorado pergunta: “tu tá tremendo?”, eu estava tremendo inteira. Acho que o que me bateu, mesmo, mais do que tudo, foi o intenso contato visual. Aquele que ela fala no livro, fala nos posts em seu blog, fala em tudo que lugar. Eu mal conseguia vestir meu casaco que suporta até -35ºC. Eu sentia meus cotovelos tremendo. Eu nem sabia que cotovelos tremiam. Que diabos essa mulher fez comigo?

Volta para o começo do show, após o anúncio de uma voz com sotaque britânico fazer aquele pedido clássico para a audiência silenciar os celulares (a voz é de Neil Gaiman que, além de pedir para silenciarmos os celulares, lista gentilmente o que vai acontecer no teatro pelas próximas horas – inclusive que “there will be one intermission”).

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Legenda: não tenho legenda

Amanda entra, senta na beira do palco, com seu ukulele desplugado, sem microfone, e quando ela começa “In My Mind”, do disco Amanda Palmer Goes Down Under, eu instantaneamente começo a chorar. Simples assim. Ela basicamente falou “in my mind” e eu caí num choro desesperado. Eu não tive tempo de, por exemplo, realizar que “ok, que legal, estou num teatro massa, no Canadá, vendo uma das minhas artistas favoritas” – eu simplesmente desandei num choro sem precedentes. Para o meu azar, eu tinha passado um lápis de olho que não era a prova d’água – afinal, eu não choro em shows – e no intervalo eu fui ao banheiro e vi que eu tinha lápis na testa, nas mãos, no queixo, nas bochechas e até no pescoço.

Tento me recompor e fazer meu nariz parar de escorrer; o teatro num silêncio sepulcral, Amanda segue lindamente tocando “In My Mind”, eu tentando engolir o choro, já começando a ficar com vergonha, tentando não fazer barulho para pegar um lenço na bolsa – em vão, já que os lenços estavam dentro daquelas embalagens plásticas e dessa forma eu fazia mais barulho do que enquanto estava apenas fungando o nariz. Eu ia deixar aqui uma nota mental para no próximo show levar lenços fora da embalagem plástica, mas eu não preciso: eu não choro em shows.

EVERYONE YOU LOVE IS GONNA DIE

Amanda vai para o piano, mas não sem antes iniciar uma longa conversa que teria sequência pelas próximas 3 horas e meia. There Will Be No Intermission é um disco triste. É um disco biográfico, brutalmente honesto e comovente. There Will Be No Intermission, o show, também é triste, biográfico, brutalmente honesto e comovente. Ela disse que tentou avisar as pessoas sobre isso na internet: “it’s the saddest album EVER”. Avisou que iríamos chorar, mas também iríamos rir. Ela encorajou a audiência a gritar: “Amanda, I’m too sad!”, caso fosse necessário. Choramos muito, rimos muitos. E assim seguiu durante todo o tempo em que passamos naquele teatro inaugurado em junho de 1893 na Saint Laurent Boulevard.

There Will Be No Intermission fala de dor. De sofrimento. De aborto. De dúvida. De morte. De solidão. De insegurança. Amanda está ali, de peito aberto, numa autopsia emocional. Disse que pessoas ficam insanas com ela e perguntam “por que caralho ela fica colocando luz sob esses temas obscuros”. Ela responde: “I’m artist. It’s my fucking job. My job is to take the dark and make light”. Vale apontar que este não é um disco que fala apenas sobre dor, sofrimento, aborto, dúvida, morte e solidão: ele também fala sobre cura, redenção, empatia. Ou seja, tanto no disco como no show Amanda não nos abandona ali naquele dark place: todos somos atingidos na jugular, de uma forma extremamente dolorosa e mortal, mas também de uma forma muito boa, se é que isso faz algum sentido.

Ao longo do show, ela dividiu com a audiência as histórias de cada música. Na verdade, a maioria das músicas tocadas foram do recém-lançado álbum, com canções escritas nos últimos sete anos e financiadas pelos mais de 15.000 apoiadores que a artista tem em seu Patreon. Falou da perda de Anthony, seu melhor amigo e confidente, que morreu de câncer – quem leu o The Art of Asking  ou a conhece da internet, que seja, deve estar familiarizado com o assunto –, falou de questões maternas principalmente ao tocar “A Mother’s Confession”, talvez uma das faixas mais intrigantes e maravilhosas do novo disco. O coro de “at least the baby didn’t die” foi lindo e, ironicamente, muito divertido.

Aliás, quem não ouviu o The Will Be No Intermission, faça isso imediatamente. “A Mother’s Confession”, por exemplo, te faz rir e chorar simultaneamente; “Voicemail for Jill”, que ela disse tentar escrever há 23 anos, partiu meu coração em 387 pedaços – te desafio a ouvir a música e ver o clipe sem se abalar (é uma das mais lindas e tristes do disco, e também uma das mais claras: fala de empatia, de “I’ve been there; and now I’ll be there for you”. Sério, veja esse clipe, entenda essa letra, pense nesse assunto); “Drowning in the Sound” é TÃO INTENSA que me dói fisicamente – e talvez a minha preferida do show (e do disco), ao lado de “Machete”; em “The Ride”, quando ela diz “I want you to think of me sitting and singing beside you” eu derreto e, depois, aceito: “it’s just a ride (…) we might as well give it a try”. Para finalizar, é precisa quando lembra: “everyone you love is gonna die”. Assim, direto na boca do estômago. It’s just a ride.

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AMANDA FUCKING PALMER (Foto: Carol Govari Nunes)

IF YOU CAN HEAR, IF YOU’RE AROUND, I’M OVER HERE

Enquanto artista fazendo arte, Amanda Palmer é certamente a minha favorita – ou está sempre no meu Top 3 – por inúmeros motivos: 1) o jeito como ela lida com o que de mais vulnerável existe no ser humano e a capacidade de colocar isso em arte. Ela comentou que as pessoas falam que, para ser artista, você tem que sofrer, mas ela aponta: na verdade, todo e qualquer ser humano sofre; se você está vivo, você vai sofrer. Você é artista porque você faz arte a partir desse sofrimento – esse é o ponto; 2) ser irônica diante de situações em que as pessoas não esperam que você aja com ironia; 3) falar com clareza e profundidade sobre temas que doem e que a gente sente vergonha; 4) assumir que é difícil mudar, que a busca pela cura é constante e trabalhosa, e 5) por último, mas não menos importante, pela forma como ela lida com a cobrança dos fãs. Amanda contou que Neil disse pra ela que se você dá o que seus fãs pedem, você fracassou. Você tem que dar o que seus fãs nem sabiam que queriam. Para mim, quando ela disse isso, ficou tudo muito claro – inclusive o meu choro no começo do show. Eu não queria chorar, ou eu não sabia que eu queria e precisava chorar?

Em relação à performance no palco, aquele vídeo de “Sex Changes”, que eu vi 10 anos atrás, não é nada comparado a vê-la ao vivo, ali, cantando e tocando piano. Amanda estudou teatro, foi artista de rua, estátua viva, trabalhou com inúmeros tipos de arte, e isso certamente afeta o jeito como ela se comporta num palco. Antes de ser musicista, Amanda é performer. Bom, lá vou eu de novo, totalmente rendida: nunca vi nada igual. Uma voz serena e confortável falando de temas desconfortáveis. Uma imposição vocal intensa e ardente quando precisa ser. O jeito que ela se mexe enquanto toca piano é hipnotizante. Ok, acho que isso é suficiente. Eu nem me atrevo a analisar o show – na verdade, eu nem consigo. Eu só consigo sentir, e eu ainda estou sentido muito e estou sentindo tudo.

A verdade é que eu vivo na defensiva e me incomoda quando pessoas me causam esse efeito – ultrapassam a minha faixa de “proibido ultrapassar”, não respeitam o aviso de “mind the gap”; bom, aparentemente eu que me descuidei e caí no vão – e sigo caindo até agora. Eu estou há 4 dias tentando digerir o que esse show fez comigo. Eu fui obrigada, no domingo, a levantar da cama e trabalhar, afinal, os textos não se escrevem sozinhos, mas passei o dia num processo de luto, ou de ressaca, sem entender o que havia acontecido. Doía tudo. Física e emocionalmente. Honestamente, até agora eu não faço ideia se estou doída ou doida. Ou os dois. Continuo oscilando entre a mais profunda tristeza e a completa excitação. Que diabos essa mulher fez comigo?

I CAN EVEN FUCK HIM IN THE ASS
No fim, para delírio coletivo – no começo do show ela disse que tocaria um trecho, caso o clima ficasse muito pesado –, rolou Coin Operated Boy, do The Dresden Dolls.

(não faz sentido gravar uma música que não é do disco novo, né? Mas foi a única música que eu gravei do começo ao fim. As outras eu estava imersa demais pra fazer qualquer coisa).

I AM NOT EXACTLY THE PERSON THAT I THOUGHT I’D BE

Eu queria escrever sobre tudo o que eu pensei/repensei desde que conheci o trabalho da Amanda Palmer. Queria contextualizar falando do crowdfunding mais bem-sucedido da história do Kickstarter, do The Art of Asking, do “we are the media”, do seu perfil no twitter, da sua conferência no TED. Queria falar do Patreon. Queria falar inclusive da versão de “Everybody Knows”, do Leonard Cohen, que ela fez nesse show aqui em Montreal. Eu tenho um monte de coisa para falar, mas só consegui falar de como esse show me afetou de uma forma que nenhum outro show me afetou, até hoje. Esse é provavelmente o texto mais open heart que eu já escrevi aqui. Eu simplesmente sentei e escrevi. Escrevi porque precisava escrever. Não pensei em mais nada. Eu sempre tento ser minimamente profissional, mesmo quando falo de artistas que eu adoro, afinal, esse é o meu trabalho. Mas dessa vez não.

Que diabos essa mulher fez comigo?

In my mind
In a future five years from now
I’m a hundred and twenty pounds
And I never get hung over
Because I will be the picture of discipline
Never minding what state I’m in
And I will be someone I admire
And it’s funny how I imagined
That I would be that person now
But it does not seem to have happened
Maybe I’ve just forgotten how to see
That I am not exactly the person that I thought I’d be

And in my mind
In the faraway here and now
I’ve become in control somehow
And I never lose my wallet
Because I will be the picture of of discipline
Never fucking up anything
And I’ll be a good defensive driver
And it’s funny how I imagined
That I would be that person now
But it does not seem to have happened
Maybe I’ve just forgotten how to see
That I’ll never be the person that I thought I’d be

And in my mind
When I’m old I am beautiful
Planting tulips and vegetables
Which I will mindfully watch over
Not like me now
I’m so busy with everything
That I don’t look at anything
But I’m sure I’ll look when I am older
And it’s funny how I imagined
That I could be that person now
But that’s not what I want
But that’s what I wanted
And I’d be giving up somehow
How strange to see
That I don’t wanna be the person that I want to be

And in my mind
I imagine so many things
Things that aren’t really happening
And when they put me in the ground
I’ll start pounding the lid
Saying I haven’t finished yet
I still have a tattoo to get
That says I’m living in the moment
And it’s funny how I imagined
That I could win this winless fight
But maybe it isn’t all that funny
That I’ve been fighting all my life
But maybe I have to think it’s funny
If I wanna live before I die
And maybe it’s funniest of all
To think I’ll die before I actually see
That I am exactly the person that I want to be

Fuck yes

I am exactly the person that I want to be

 

PS: eu poderia ter colocado acima a letra de alguma música do disco novo, mas “In My Mind” foi a primeira marretada na minha cabeça durante o show e, além disso, a letra diz tanto sobre mim, que, sei lá… é isso.

Na última sexta-feira, 22 de março, a banda Mustard Plug passou pelo Foufounes Électriques, em Montreal, durante sua canadian tour 2019.

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The Lef7overs (Foto: Carol G. Nunes)

Quem abriu a noite foi The Lef7overs, uma banda feminina de punk/rock/metal. Formada por Meghan Mulvaney (vocais), Victoria Turner (guitarra, backing vocal), Carol Ribeiro (guitarra, backing vocal), Belgin Odyakmaz (baixo) e Jordano D’Alesio (bateria), a banda, que é natural de Montreal, traz fortes influências do movimento Riot Grrrl da década de 90, além de uma sonoridade que se assemelha bastante com L7, Joan Jett, The Runaways, Bikini Kill, Sepultura, Pantera, entre outras bandas de punk e metal.

O show começou pouco depois das 20h, com um público ainda tímido, mas que aos poucos foi se direcionando para a frente do palco. Diferente da vez que eu tinha visto a banda no Barfly, em dezembro do ano passado – provavelmente ocasionado, em boa parte, pela estrutura do bar (em algum momento eu vou escrever sobre todos os shows que vi aqui em Montreal. Não sei quando, mas vou) –, a Lef7overs fez um show cheio de atitude, totalmente enérgico, divertido e, possivelmente, o mais coeso da noite. Foi um show curto, mas bem redondo, que tu entende o que a banda está fazendo. Eu gosto de shows assim.

A banda tem uma demo, Massive Freakout, que foi lançada em novembro de 2018. As faixas são: “She Don’t Want That Bro”, “Good Friends” e “Massive Freakout” e estão disponíveis no https://thelef7overs.bandcamp.com/. Tem também a fanpage das gurias, onde há várias fotos, vídeos e outras informações.

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PL Mafia (Foto: Carol G. Nunes)

Na sequência, foi a vez da PL Mafia, uma banda de ska punk, também de Montreal, que é formada por Emilie Bourguignon (trompete), Mike Gabriel (baixo), Alexis Granger (voz, guitarra), Karl Houde (bateria, voz), Mario Ouellet (trombone, voz) e Patrick Lebeau (guitarra). A PL Mafia começou suas atividades em 2003 e tem três discos lançados: Opération: Porto (2005), Le Kid (2009) e Lendemain de veille (2012). Foi um show mais barulhento que o anterior, bastante viril e com boa adesão do público, que finalmente estava lotando a casa de show.

Mustard Plug, principal atração da noite, é uma banda ska punk de Grand Rapids (Michigan) e composta por David Kirchgessner (vocal), Brendon Jenson (trompete), Jim Hofer (trombone), Nate Cohn (bateria), Colin Clive (guitarra e vocal) e Rick Johnson (baixo). A banda foi formada em 1991 e desde então tem excursionado regularmente pela Europa, Japão, América do Sul e América do Norte.

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Mustard Plug (Foto: Carol G. Nunes)

Com sete álbuns na bagagem (Skapocalypse Now! [1992], Big Daddy Multitude [1993], Evildoers Beware! [1997], Pray for Mojo [1999], Yellow No. 5 [2002], Masterpieces: 1991-2002 [2005], In Black and White [2007], Can’t Contain It [2014]), o Mustard Plug fez um show divertido, muito animado e totalmente para dançar. Rolaram moshs e rodas por todo lado, o tempo todo. Foi isso, inclusive, que o vocalista David Kirchgessner disse logo no começo do show: eles estavam ali com o intuito de que as pessoas relaxassem e se divertissem – assim como eles, claro, que amam o que fazem e também gostam de se divertir.

No Spotify vocês encontram todos os discos do Mustard Plug. Ah, dois discos da PL Mafia também estão disponíveis no Spotify, é só clicar aqui.

 

For over a decade, The Cat Empire have been known far and wide as one of the world’s greatest party bands. Their colourful, genre-bending music, shipped across the world in traveler’s backpacks seems at home almost anywhere, and yet the band has always been a kind of illusive stranger.

Now The Cat Empire Tour is returning to North America to play for the first time since 2016.

They will be hitting all the cities in one giant loop staring in New York and ending in SanDiego with a giant drive across Canada in between – in Montreal, QC, the band will play on March 4th and 5th, at MTELUS.

Tickets and information you find on the Evenko website.

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Stiff Little Fingers (Foto: Carol Govari Nunes)

Cheguei em Montreal no início deste mês (ok, foi no dia 31/10, mas conta oficialmente a partir do dia 1º) para um período de 6 meses de doutorado sanduíche (ou Graduate Research Trainee, que é como é chamado o programa aqui) no Department of Art History & Communication Studies da McGill University.

Quem está me recebendo na McGill é o professor e pesquisador Will Straw, fundador e principal disseminador do conceito de Music Scenes, algo extremamente importante para a área de Comunicação e Música, que é onde desenvolvo minha pesquisa de doutorado. Foram 10 meses de burocracias infindáveis e etapas vencidas até desembarcar em Montreal (e que não termina aqui, segue até o meu retorno). Fui contemplada com uma bolsa PDSE – Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior, da CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoa de Nível Superior, que por sua vez integra o Ministério da Educação do Governo Federal. A CAPES, o CNPq e todos esses programas que financiam pesquisas no Brasil são vitais para o avanço e para a internacionalização da Educação e da Ciência no país, e eu tenho total consciência da minha responsabilidade de entregar um trabalho que gere contribuições nessas áreas.

Mas chega desse papo burocrático/científico – já faço isso demais em outros lugares – e vamos ao que importa: Stiff Little Fingers. Na mesma noite em que cheguei em Montreal fui ao Foufones Életriques, um bar alternativo que alimenta a cena de punk rock local desde 1983. E foi lá que no dia 10 de novembro, último sábado, vi um show da maior banda punk da Irlanda do Norte. Em atividade desde 1977, o Stiff Little Fingers está em uma turnê de 15 shows por todo o Canadá.

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The Mahones (Foto: Carol Govari Nunes)

Quem abriu o show foi o The Mahones, uma banda de Toronto que tem os dois pés no irish-punk. Isso porque Finny McConnell, fundador do The Mahones – e nascido em Dublin –, formou uma banda para uma festa de St. Patrick’s Day em 1990 e desde então não parou mais de tocar. Um ótimo show de abertura, por sinal. Foi tão interessante que pretendo procurar pra ouvir melhor.

E o Stiff Little Fingers fez um show super político para e sobre os dias atuais. Bom, se pensarmos que são músicas de protesto feitas no final dos anos 1970, elas não deveriam ser tão atuais assim. Mas são. Jake Burns, vocalista e guitarrista da banda, conversou com o público e em diversos momentos criticou a situação da política no mundo. E não teria como ser diferente: a banda traz na bagagem 40 anos de letras que falam sobre a dureza da vida do proletariado, problemas políticos, conflitos religiosos e tantos outros temas que foram cantados por um público relativamente velho, que começou tímido, mas terminou abrindo várias rodas de pogo enquanto a banda finalizava o show com seus maiores hits.

Foi uma ótima primeira experiência em Montreal. No final do mês rola o Montreal Ska Festival e eu to super ansiosa pra ir. Depois eu conto como foi 😉

 

Ela já colocou tocar Linda Scott antes de entrar no palco; hoje toca Peter Tosh. Já cantou “Bang Bang” (Nancy Sinatra) acompanhada somente de um violão na beira do palco de um festival. Já cantou trechos de “Bom Senso” (Tim Maia), “Asa Branca” (Luiz Gonzaga), “Sociedade Alternativa” (Raul Seixas), “Be My Baby” (The Ronettes), “Smells Like Teen Spirit” (Nirvana), “Fórmula Mágica da Paz” (Racionais MCs), entre tantas outras no meio de suas músicas. Gravou “Sailin On”, mas também cantou “Leaving Babylon” (Bad Brains). Pitty sempre deu pistas de onde vem, mas só agora, em sua nova turnê Matriz – que lotou o Opinião nos dias 30 e 31 de agosto – é que decidiu buscar, repensar e expor sua formação musical.

Matriz traz um show novo, que se diferencia bastante do SETEVIDAS. O que ficou da turnê anterior foi o chute no ar em “SETEVIDAS”, as palmas em “Serpente”, e o microfone giratório em “Boca Aberta” – que no dia 31 deu lugar a “Pulsos” (mantendo o microfone giratório). De resto, praticamente tudo mudou: a ordem do setlist, a formação da banda, o telão (que agora dá lugar a um belíssimo cenário desenhado por Eva Uviedo) e a disposição dos instrumentos no palco.

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Foto: dia 30, por Taty Larrubia

Já comentei aqui inúmeras vezes sobre a mudança que ocorre nos arranjos das canções, mas dessa vez Pitty resolveu cavar mais fundo e apresentar suas composições da forma como elas vieram ao mundo: no violão. “Teto de Vidro” e “Temporal” estão entre as escolhidas. No set acústico – que pra mim é um dos pontos altos dessa turnê – ainda ouvimos “Dançando” (Agridoce), “Ovelha Negra” (Rita Lee, no dia 30), e “Bom Brasileiro” (Cachorro Grande, no dia 31). É preciso bastante segurança no que está propondo pra não arriscar esfriar um show com uma rodinha de violão. E não esfria. Mesmo. Também tem que ter segurança (e ousadia) pra inverter a ordem que os fãs estão habituados: lançar disco -> sair em turnê. “Como assim lançar música em show?”; “Como assim avisar o nome da turnê em um show?”; “Mas não vai ter disco?”; “Quando sai o disco?”; Cadê o disco?”; “Em 2007 tu fez diferente – inclusive ensinou a cantar “Pulsos” antes da gravação do DVD!”. Pois é, em 2007. É comum do ser humano se apegar a algo e querer que seja assim sempre. A gente se acorrenta a ideias e nem percebe que está fazendo isso (escrevi algo nessa linha quando Pitty participou do Sambabook do Martinho da Vila, em 2013, tem nos arquivos do blog), mas faz. Felizmente, Pitty resolveu enfrentar essas ideias e quebrar esses formatos.

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Foto: dia 31, por Taty Larrubia

Particularmente, acho um privilégio ver uma turnê como Matriz na estrada, com uma artista desconstruindo suas certezas e mostrando que o rock, enquanto gênero musical, não é algo fechado e acabado. E mais do que isso: que é possível reivindicar diferentes gêneros musicais pra constituir um álbum – e também uma carreira artística. Me soa absolutamente natural Pitty, que já nos deu tantas pistas de sua bagagem musical, finalmente acionar contextos e influências de gêneros como reggae, dub, rocksteady, juntando com punk, hardcore, utilizando bases eletrônicas, saindo do cercado rotulado como puramente “rock’n’roll”. Afinal, o que é puro? E o que é rock? E por que tem que ser puro?

Todas essas questões fazem com que Pitty se renove não apenas estética e musicalmente, mas também corporalmente no palco. Todos temos um repertório, uma memória corporal, mas Pitty não encena seu arquivo turnê após turnê, como a maioria dos artistas de rock fazem. Pra cantar “Te Conecta” é necessário um abandono da postura agressiva do rock; e é diferente cantar/gritar “Temporal” tocando uma SG preta e cantar “Temporal” somente acompanhada de violão.

Matriz é uma visita guiada à guria que compôs um monte de hits nacionais num quartinho em Salvador/BA. É uma ponte entre o passado e o que ainda vai surgir no futuro, não esquecendo de aproveitar o agora, esse momento tão precioso de reconhecimento e reflexão.

A turnê ta aí, acabou de começar. Pitty é uma artista de palco – pareço um papagaio sequelado repetindo isso há anos, mas Pitty é uma artista de p-a-l-c-o. Tem gente que manda bem nos clipes, no estúdio, mas não funciona no palco. Pitty tem ótimos clipes, grava ótimos discos, mas funciona infinitamente melhor no palco. “Contramão” ao vivo fica imbatível. Sério. Vá ver. Ta rolando shows pelo Brasil inteiro. As próximas datas você pode conferir aqui.