Archive for the ‘Rock’ Category

3

Foto: Carol Govari Nunes

Na última quarta-feira, dia 16, rolou no Opinião a estreia do espetáculo De Volta Para a Garagem – uma peça de teatro/show que remete a um encontro fictício entre Biba Meira, Edu K, Frank Jorge, Flávio Basso e Charles Master, abordando toda a música, angústia, chinelagem, diversão e repressão vivida durante os anos 80 em Porto Alegre.

O encontro acontece em uma noite chuvosa, onde os músicos se unem sob um teto para esperar a chuva passar – e o amanhecer chegar – e, enquanto isso, conversam, bebem, deliram e fazem música. Tópicos como viver de rock’n’roll, questões identitárias, as dores e as delícias de viver em Porto Alegre, fracasso, putaria, o sonho de se tonar um ídolo mundial (maior que os Beatles, tal qual Flávio Basso certamente foi – pelo menos aqui em Porto Alegre), astrologia, budismo, censura e outros vários assuntos surgem durante a noite.

Com texto inicial baseado no belíssimo Pode ser que seja só o leiteiro lá fora, de Caio F, e texto final e direção de Bob Bahlis, De Volta Para a Garagem diz ser uma “homenagem ao rock gaúcho”, mas acredito ser muito mais do que isso: é uma homenagem à trupe que habitou o bairro Bom Fim em sua década de maior efervescência e resistência, e compila, em uma só noite, rastros de poesia, literatura, música e teatro, tudo ao som do que, agora sim, ficou conhecido como “rock gaúcho” e suas principais bandas: Taranatiriça, Defalla, Julio Reny, TNT, Os Cascavelletes, Graforréia Xilarmônica, Os Replicantes, Bandaliera, entre outros. Ou seja, o “rock gaúcho” atua, na peça, como um guarda-chuva que abriga tudo o que o rótulo – odiado por uns, amado por outros – significou para essa geração que estava recém saindo de uma ditadura militar, que queria se expressar, se divertir, que sentia-se culpada – ou simplesmente era apontada como culpada – por ser diferente e que, mesmo tomando atraque da polícia em plena Osvaldo Aranha, seguia fazendo arte e resistindo culturalmente. E resistiu tanto – e fez tanta, tanta arte – que mais de 30 anos depois ainda estamos aqui, reverenciando tudo o que essa década significou para a cultura gaúcha.

2

Grandes sucessos do rock gaúcho foram tocados pelo elenco (Foto: Carol Govari Nunes)

O elenco é composto por Bruno Bazzo (guitarra, ator), Leonardo Barison (gaita, ator), Nina Rouge (cantora, atriz), Samuel Reginatto (guitarra, ator) e Zé Fernandes (contrabaixo, ator).  Os músicos que reforçam a banda são André Hernandes (Guitarra) e Tazz Goetems (bateria).

Ao final da noite, Bob Bahlis subiu ao palco para fazer um agradecimento e chamou Charles Master e Biba Meira, presentes na plateia, para se juntarem aos atores/músicos. Rolou “Não Sei”, um dos maiores clássicos do TNT, e no vídeo abaixo você pode conferir como foi:

“Não escreve sob o império da emoção.
Deixa-a morrer, depois a revive.
Se és capaz de revivê-la tal qual como a viveste,
chegaste, na arte, à metade do caminho”.
(Horacio Quiroga em Decálogo do perfeito contista).

Eu nunca escrevo sob o império da emoção após um show. Levo em média uns 4 ou 5 dias para compreender todos os sentimentos despertados, e só então me sento, o revivo, e escrevo. Esse é meu modus operandi, basicamente.

Mas dessa vez eu resolvi testar uma coisa diferente; achei que a data – dia do compositor brasileiro e aniversário da Pitty – pedia um esforço da minha parte. Se vai dar certo, eu não sei, então vamos ver o que vai sair daqui.

Bem, eu escrevo sobre shows da Pitty há quase 10 anos; e eu vejo shows da Pitty há 15 anos. Às vezes eu penso que não tenho mais nada para escrever sobre, embora eu precise externar o que eu sinto sobre, se é que isso faz algum sentido. Várias pessoas ainda me perguntam por que eu assisto ao “mesmo” show há mais de uma década. Pra responder, recorro ao que escreveu o querido Jorginho Cardoso Filho, em 2011, sobre as formas de apreender a experiência estética, exemplificando a efemeridade através dos encontros entre um homem e um rio: quando se percebe que determinado encontro não se repetirá, abre-se a possibilidade de fruir a particularidade de cada encontro de maneira única e intensa. É mais ou menos dessa forma que vejo meu encontro, enquanto público, com a Pitty performando em um palco: ele não se repete, porque é excepcional e efêmero. E o encontro com o show de lançamento do Matriz não seria diferente.

MATRIZ 2.0

No sábado, dia 5, Pitty apresentou seu novo disco, recentemente indicado ao Grammy Latino de Melhor Álbum de Rock ou de Música Alternativa em Língua Portuguesa, no Pepsi on Stage, em Porto Alegre. Após uma playlist impecável com o melhor do dancehall, dub, early reggae, rocksteady y otras cositas más feita pela cantora especialmente para os shows (por favor, Alejandro, me manda essa playlist – e parabéns por ser um excelente técnico de P.A.), o som sobe com “Legalize It”, do Peter Tosh, avisando que o show está para começar.

IMG_1354

Momento “quartinho em Salvador”, onde a artista apresenta o embrião de algumas músicas, como “Teto de Vidro” e “O Lobo”. Fotos: Carol Govari Nunes

De cara, somos apresentados ao Matriz por meio do vídeo de “Bicho Solto”, feito por Otavio Sousa e com imagens captadas por Alisson Louback, enquanto a banda entra no palco. Pitty abre o show com “Ninguém é de Ninguém”, seu single mais recente – e uma das músicas preferidas da galera –, enquanto somos engolidos pela projeção do videoclipe; ou seja, chegou dando no meio. (Desculpem, não consigo pensar em nenhuma maneira mais sofisticada para dizer que, bom, “Pitty chegou dando no meio”. Chegou de voadoura, talvez? Eu avisei que preciso de 5 dias para escrever sobre um show).

O Matriz 2.0, em Porto Alegre, apresentou 9 (contando “Bicho Solto”, no começo) das 13 faixas do disco novo. Matriz, como muitos já sabem, aconteceu de forma orgânica, na estrada, e Pitty recupera e articula diferentes referências e gêneros musicais ao longo do disco. Me impressiona, muito, como Pitty fez tudo isso funcionar no palco. Sempre pensei que “Redimir”, uma das minhas faixas preferidas, não funcionaria ao vivo. Mas ela funciona tanto – mas tanto! – que sigo até agora impactada, com aquela batida no meio do meu peito e as palmas ecoando na minha cabeça. Se fecho os olhos, vejo Pitty ali na frente do monitor do Martin, com aquele foco de luz a iluminando, o resto do palco todo escuro. Um absurdo. Hipnotizante. “Bahia Blues”, digna de uma peregrinação de fãs por Salvador, é outra faixa que no disco eu acho incrível, mas também achava que poderia ficar meio linear ao vivo, e preciso dizer: eu nunca me senti tão feliz por estar completamente enganada. “Noite Inteira” é a voz da resistência, entoada pelo público no maior clima de união; e “Te Conecta”, que apareceu na turnê anterior dando pistas de onde Pitty poderia chegar, faz infinitamente mais sentido, agora, nesse show.

Se em “Ninguém é de Ninguém” Pitty chegou dando no meio, em “Roda”, com participação de Russo Passapusso e Beto Barreto, do BaianaSystem, foi o momento em que a banda passou de trator em cima da galera. E eu sei que parece contraditório dizer que a banda “passou de trator” em cima do público, sendo que foi, talvez, o momento mais explosivo do show, mas é a única forma de expressar o que senti naquele momento.

4444444

“Motor, uma das partes mais envolventes do show

“Motor” é a parte que chega ~dói aqui dentro. Linda, sensível, tri bem pensada entre “Na Sua Estante” e “Redimir”. Na verdade, tudo nesse show transparece que foi muito bem pensado. Há uma história sendo contada, com retomadas ocasionais ao passado, como o momento “quartinho de Salvador”, mas com uma narrativa muito bem amarrada e em direção ao futuro, vide “Submersa”, que lindamente faz com que a gente saia daquele quartinho e retorne a 2019. Matriz tem um show eficaz, onde a plateia não enxerga os andaimes da construção: é coeso, coerente, envolvente. Há uma progressão que começa em “Bicho Solto” e termina em “Serpente”, no bis; um caminho por onde Pitty abusa de toda a sua competência pra manter o público imerso naquilo que ela oferece de melhor: uma performance ao vivo.

Além disso, a artista – chamá-la de cantora não é mais suficiente – mostra um baita trabalho braçal e está presente em 100% da noite que entrega: da playlist que toca antes do show, passando pelo roteiro cenográfico, projeções, iluminação, direção; ou seja, tudo ali reflete seus posicionamentos e colabora para que o show aconteça de forma catártica.

PROJETO PALCO ABERTO

ad

Alice Kranen, a artista convidada para o Palco Aberto de POA

Um dos diferenciais da turnê Matriz é o Palco Aberto, projeto onde bandas locais abrem o show de Pitty. Parceria da cantora com a TNT Energy Drink, o projeto tem curadoria de Tony Aiex, editor-chefe do site TMDQA, e acaba dando espaço para que novos artistas – todos com projetos autorais – sejam conhecidos por um público maior, fomentando a cena local. Já passaram pelo projeto Flaira Ferro (PE), Mulamba (PR), Violet Soda (SP) e Ouse (CE). Em Porto Alegre, a artista convidada foi Alice Kranen, uma cantora e compositora de apenas 14 anos, que traz bastante influência de blues, folk e rock em suas composições. Visivelmente emocionada, Alice conduziu muito bem seu show, tocando violão em todas as músicas, e apresentou os singles “Travas em Portas” e “Talvez”, entre canções próprias e covers, como “Zombie”, do The Cranberries.

O projeto Palco Aberto é uma das coisas mais legais que estão acontecendo na música, atualmente. Pitty, que veio do underground, faz uma ponte entre o cenário independente e o mainstream, pois sabe como é importante fornecer espaços para que novos talentos mostrem seus trabalhos. É uma oportunidade que certamente marca a carreira – e a vida – desses novos artistas.

Outras informações sobre o projeto Palco Aberto, que ainda vai rolar em mais 16 cidades, você encontra clicando aqui.

7 DE OUTUBRO

Como comentado no início deste texto, hoje, além de ser o dia do compositor brasileiro, é aniversário da Pitty. Sou péssima com demonstrações públicas de afeto – apesar de achar que esse texto está beeeem claro –, mas uso esse finalzinho pra parabenizar a minha compositora brasileira preferida, uma das artistas mais gentis que eu tenho a sorte de conhecer, e que mesmo depois de 15 anos segue me instigando e me fazendo voltar pra ver o que ela vai aprontar no palco. Feliz ano novo, Pitty ❤

Eu disse no post anterior que o VI Comúsica seria meu último evento acadêmico no doutorado. Pois bem: eu menti.

Abaixo, compartilho o Call For Papers do I Simpósio CULTPOP – grupo de pesquisa do qual faço parte desde 2014 -, evento que acontecerá nos dias 31 de outubro e 1 de novembro na Unisinos, em Porto Alegre. Segue:

WhatsApp Image 2019-09-20 at 12.04.05

O Grupo de Pesquisa CULTPOP – Cultura Pop, Comunicação e Tecnologias, registrado no CNPq e vinculado ao PPG em Ciências da Comunicação da UNISINOS (Universidade do Vale dos Sinos) se dedica desde 2011 aos estudos sobre a cultura pop na área de comunicação e, pela primeira vez está organizando um Simpósio totalmente dedicado aos estudos sobre cultura pop.

O evento visa reunir pesquisadores e pesquisadoras dos mais diversos níveis – da Iniciação Científica ao Pós-Doutorado – e filiações que estejam estudando os mais variados fenômenos da Cultura Pop, sobretudo na relação direta entre a centralidade da mídia e da tecnologia neste debate. Com isto, esperamos criar um espaço para a discussão acadêmica sobre temas que, em geral, não têm tanto espaço em eventos de grande porte e, além disso, é uma oportunidade de criar um diálogo direto com entusiastas e outras pessoas da sociedade civil que se interessem pelos temas a serem debatidos.

O simpósio ocorrerá nos dias 31 de outubro e 1º de Novembro na Unisinos – Campus Porto Alegre. Aproveitando o ensejo do Halloween/ Dia do Saci e a proximidade com o Dia de Los Muertos, o tema dos painéis temáticos a noite será “Fantasias, distopias e horrores da cultura pop e das mídias no Brasil do século XXI”. Além dos painéis, teremos apresentações de trabalhos de temática livre.

Os artigos podem incluir os tópicos a seguir, sem se restringir a eles:

– Teorias e metodologias na pesquisa em cultura pop;
– Estudos de mídias e cultura pop;
– Música e cultura pop;
– Estudos de fãs e de fandoms;
– Literatura e transmidialidade na cultura pop;
– Estudos de celebridades e influencers da cultura pop;
– Estudos de subculturas no contexto da cultura pop;
– Intersecções entre cultura pop, estudos de redes sociais e cultura digital;
– Memória, arquivos e arqueologias da cultura pop;
– Afetos e cultura pop;
– Transculturalidades na cultura pop;
– Cartografias da cultura pop: Ocidente, Oriente, Periferias, Centros;
– A cultura pop a partir do Sul Global;
– Questões interseccionais na cultura pop: gênero, raça, geração etc.
– Ativismos políticos e cultura pop;
– Jornalismo e cultura pop;
– Estudos do consumo, mercado, lovemarks e cultura pop;
– Eventos, entretenimento, esportes e cultura pop;
– Estilos de vida, moda e cultura pop;
– Manifestações estéticas da cultura pop;

É importante destacar que, embora o foco do evento seja sobre Comunicação, os pesquisadores e pesquisadoras de outras áreas são sempre bem-vindos. Além disso, convidamos também fãs, cosplayers, produtores culturais e trabalhadores da Indústria Criativa em geral para participar, não só do debate acadêmico, como também dos espaços de socialização que devem ser disponibilizados.

Envio de Trabalhos:
Os resumos devem conter até 200 palavras e podem ser enviados até 01 de Outubro de 2019, através do e-mail: simposiocultpop@gmail.com. No resumo deve-se incluir uma descrição da proposta do artigo contendo até três referências bibliográficas, cinco palavras-chave e um mini currículo de até 05 linhas. Os autores dos resumos aprovados serão comunicados por e-mail até 07 de Outubro de 2019. Os participantes que tiverem seus resumos aceitos e quiserem enviar o artigo completo depois, deverão apresentá-lo até o dia 20 de Dezembro de 2019. Os melhores artigos serão selecionados e incluídos em um livro organizado pelo grupo de pesquisa em 2020.

A participação para apresentadores e ouvintes será realizada mediante inscrição online que dará direito aos certificados.

Valores da Inscrição:
Estudantes de graduação: R$ 30,00
Estudantes de pós-graduação: R$ 50,00
Professores e profissionais: R$ 70,00

Programação Preliminar

31/10 – Quinta-Feira
8h30-9h30 – Credenciamento
9h30 – Abertura PPG Unisinos e CULTPOP
10h-12h – Painel 1: A pesquisa em cultura pop no Brasil: abordagens teóricas, enfrentamentos e contextos
14h-16h – Apresentação de Trabalhos
16h-16h30 – Coffee Break
16h30 – 18h30 – Apresentações de Trabalhos
19h-21h – Painel 2: “Narrativas, distopias e fantasias: movimentos da cultura pop no contexto brasileiro”

01/11 – Sexta-Feira
8h30-9h30 – Credenciamento
10h-12h – Painel 3: Linguagens da cultura pop e a popularização da ciência: a escrita acadêmica e a divulgação das pesquisas
14h-16h – Apresentação de Trabalhos
16h- 16h30- Coffee Break
16h30 – 18h30 – Apresentações de Trabalhos
19h30 – Painel 4: “A noite é escura e cheia de horrores”: horror e terror na cultura pop nacional

Organização: CULTPOP e PPGCC Unisinos

Meu último congresso científico como doutoranda foi o VI Congresso Nacional de Comunicação e Música – Comúsica, que aconteceu no começo deste mês, entre os dias 3 e 5 de julho, na UFRB, em Cachoeira, Bahia (cheguei na Bahia no 2 de julho – pense!). Este foi o último congresso porque defendo em fevereiro de 2020, então o segundo semestre vai ser focado na escrita da tese.

Acho que eu não poderia escolher evento melhor para encerrar essa etapa da minha formação. O VI Comúsica focou nos temas Música, Memória e Sensibilidades, e os encontros dos GTs, além das palestras, levantaram temas que me afetam muito e em diversas instâncias pra além da academia.

A tradição musical que Cachoeira possui – as filarmônicas, o samba de roda, o reggae do Recôncavo – acabou dando um toque muito especial ao evento. Ter a oportunidade de participar de um congresso e ainda entrar em contato com a cultura e a música local é algo incrível, pois suscita questões para a minha própria pesquisa que eu não veria ficando somente na minha cena musical/cultural (falo sobre isso com frequência, pois funciona muito, pelo menos pra mim, sair do meu lugar confortável de vida/pesquisa).

E Cachoeira teve muito a me mostrar: o reggae noturno nos bares, o licor, a dança, os corpos, a maniçoba, a fala devagar, o tempo que corre em um ritmo completamente diferente, as ruelas, a penumbra, os prédios históricos, a ponte, São Félix do outro lado do rio.

Casa do Samba de Dona Dalva

A coordenação do Comúsica organizou uma visita guiada à Casa do Samba de Dona Dalva Damiana de Freitas, cantora e compositora do Samba de Roda Suerdieck, primeiro grupo artístico de Cachoeira, fundado por ela em 1958. O nome do grupo vem da fábrica de charutos homônima, onde dona Dalva trabalhava. Por mais de uma década, as apresentações do Samba de Roda Suerdieck se limitaram aos eventos da fábrica e ao calendário religioso da cidade, quando saía em cortejo pelas ruas e organizava rodas de samba sem o uso  de equipamentos de sonorização.

Seu grupo teve papel importantíssimo para que o Samba de Roda do Recôncavo da Bahia fosse tombado pelo IPHAN como Patrimônio Imaterial Nacional, e posteriormente reconhecido pela Unesco como Patrimônio Imaterial da Humanidade. Em 2012, Dona Dalva recebeu o título de Doutora Honoris Causa da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

WhatsApp Image 2019-07-06 at 09.32.13

Momento da oficina do samba de roda (Foto: Morena Melo Dias)

Any Freitas (uma querida!), neta de dona Dalva – e também sambadeira, como sua mãe e sua avó –, foi quem guiou a visita e contou toda a história de vida de sua avó, que infelizmente não estava presente, pois havia contraído uma virose, assim como o resto do grupo. Além de guiar a visita, Any, junto com seu tio (que vergonhosamente esqueci o nome, falha minha), ministraram uma oficina onde pudemos aprender um pouco como se toca o samba de roda em seus principais grupos: lembro que um deles era o samba corrido. Tocamos pandeiro, os blocos de madeira (utilizados pelas sambadeiras para acompanhar o ritmo), batemos palmas, Any dançou, cantou, tocou chocalho, explicou a origem do “samba de raiz”, o pé no chão, a “umbigada” que chama para dançar no centro da roda. Foi uma noite ótima e muito, muito emocionante. A energia presente na Casa do Samba de Dona Dalva é um negócio absurdo, que te atravessa o corpo todo. Fico pensando como é quando ela está lá.

Eu gostaria muito de estar em Cachoeira nos próximos dias, já que de 13 a 17 de agosto acontece a Festa da Nossa Senhora da Boa Morte. Como infelizmente isso não é possível, acompanho pelas redes sociais da Casa de Samba, onde também é possível colaborar com doações.

Lazzo Matumbi – Batuques do Coração  

No dia 6 de julho, após o fim do Comúsica, fui para Salvador. Para minha sorte, estava rolando o show Batuques do Coração, de Lazzo Matumbi, apresentado em duas únicas sessões (6 e 7 de julho) na Sala do Coro do Teatro Castro Alves, onde o artista homenageou os blocos de samba que recontam a história do povo negro no Brasil, ou seja, fechou demais com o clima e a energia que eu trazia de Cachoeira.

Vi o show do dia 7 (no dia 6 acabei ficando pelo Rio Vermelho e fazendo um “passeio” pelos bares alternativos, mas não vou entrar nesse assunto, acho que ele não cabe nesse post), onde, num ambiente totalmente intimista, Lazzo interpretou clássicos do samba, como músicas de Donga, João da Baiana e Heitor dos Prazeres, precursores do gênero. A direção musical do espetáculo foi dividida entre Lazzo e Tote Gira, grande compositor baiano, e os dois conversaram muito com a plateia durante todo o show: contaram como surgiu a ideia desse espetáculo, a seleção das canções, a ideia de ser algo bem íntimo, mesmo, como se fosse na sala da casa de Lazzo.

Screenshot_20190730-224010_2

Lazzo Matumbi – Batuques do Coração (Foto: Carol Govari Nunes)

Com quase 40 anos de carreira, Lazzo Matumbi, que mistura sonoridades como reggae, batuques africanos, samba, soul, jazz, maracatu, ijexá, aguerê, alujá, entre tantas outras células rítmicas, é considerado um dos maiores intérpretes do Brasil. O artista, que iniciou a carreira no bloco afro Ilê Aiyê, disse que fazia tempo que queria fazer um show onde pudesse ficar perto da plateia, conversando calmamente, algo que não acontece quando está em um trio elétrico.

Após quase 2 horas de show, Lazzo encerrou a noite falando sobre resistência, luta, amor e a força do povo negro. Uma noite memorável para todos os presentes, que na saída da Sala do Coro do Teatro Castro Alves tomaram uma chuva torrencial pra completar de lavar a alma.

Outras histórias

download

Capa do Moscote (Divulgação)

Na segunda, dia 8, encontrei o querido Thiago Trad, percussionista, compositor e multi-instrumentista, que trabalha atualmente no show de Moscote, seu primeiro disco solo, após ter integrado o Cascadura durante os seus últimos 15 anos. Moscote é um disco de jazz instrumental contemporâneo, fruto de uma pesquisa in loco na qual ele percorreu o mundo – seja tocando ou apenas investigando sons. Em uma dessas andanças, passou por Porto Alegre, em 2015, com o projeto Bahia Experimental, onde finalmente pudemos nos conhecer pessoalmente.

Thiago e eu conversamos sobre inúmeros assuntos, entre eles algo que eu já havia conversado com Fábio Cascadura, em Toronto: as similaridades e os atravessamentos musicais entre bandas de Porto Alegre e Salvador. E não é só porque “todo mundo morou junto, em São Paulo”, vai além disso e muito antes disso: a influência direta d’Os Cascavelletes no Dr. Cascadura, a forma com que as bandas falam sobre amor, sobre sexo, o humor mais irônico, o jeito “esculhambado”, como disse Thiago – e que aqui em Porto Alegre se aproximaria do que a gente chama de “chinelagem” –, a aversão às normas dominantes e outras características que encontramos em inúmeras canções. Claro que muito disso acaba sendo datado, nas duas capitais, entre meados dos anos 1980 e começo dos anos 2000 – e, claro, também, que são características encontradas em bandas de rock de outras cidades do país. Mas, não sei, sempre tive a sensação de que existe alguma coisa aí que faz uma liga, sim.

Ou quem sabe isso seja só uma forma de eu justificar o motivo das minhas bandas preferidas serem gaúchas e baianas. Porque, óbvio, eu preciso encontrar uma explicação pra isso – assim como fico buscando, exaustivamente, explicação pra tudo ao meu redor. Provavelmente não vai ser aqui, nesse texto, que eu vou finalmente encontrar essa explicação. Na verdade, confabular teorias com amigos é muito mais divertido e estimulante do que chegar a uma conclusão. Sorte minha ter tanta gente – e tanta música – massa assim na minha vida.

Elza Soares, ou melhor, Doutora Elza Soares, definitivamente uma das maiores artistas da nossa época, passou com sua turnê Deus é Mulher pelo Opinião, em Porto Alegre, no último sábado, 25 de maio.

Depois de dois anos sem se apresentar em Porto Alegre, a Voz do Milênio (eleita pela BBC de Londres) cantou as músicas do seu disco mais recente, o elogiadíssimo Deus é Mulher, e sucessos que traz ao longo de toda a sua carreira.

IMG_1161

Elza e banda, sob forte aplauso, ao final do show (Foto: Carol Govari Nunes)

Uma banda excelente acompanha Elza nessa turnê, que tem direção musical de Guilherme Kastrup (também é o baterista da banda). Além de Guilherme, vemos no palco Rodrigo Campos (guitarra e cavaco), Rafa Barreto (guitarra e Synth), Luque Barros (baixo e synth), Da Lua (percussões) e Rubi (vocais). Na verdade, essa banda não “acompanha”, somente, Elza; essa banda faz um show que preenche todo o ambiente: é vivo, pulsante, uma delícia de assistir. E sentada em seu trono, tal qual a rainha que é, Elza Soares emociona tanto que eu nem encontro adjetivos suficientes para explicar.

Vê-la ao vivo, cantando com aquela voz inconfundível, é um privilégio. Para além de sua voz excepcional, a presença de Elza no Opinião foi marcada pela força, garra, gentileza, generosidade, humildade e gratidão que a cantora transpira.

Sob aplausos e gritos constantes da plateia, que entoava repetidamente “Doutora! Doutora! Doutora!”, título que recebeu no domingo, 26, na UFRGS, por sua relevância artística e também por causa de sua vida pública no combate ao racismo e à promoção da cultura afro-brasileira – este foi o primeiro título de Doutora Honoris Causa concedido a um músico pela universidade, vale lembrar –, Elza defendeu os professores, as universidades públicas, falou do direito à educação e de como a educação transforma vidas. Um show político e extremamente necessário dentro do contexto em que nos encontramos.

IMG_1104

Elza Soares – Deus é Mulher (Foto: Carol Govari Nunes)

Elza falou também de sua relação de amor com a cidade e com o amigo Lupicínio Rodrigues, que a trouxe para Porto Alegre para fazer o primeiro show profissional de sua carreira. Além do amor por Porto Alegre e por seu povo, falou da necessidade do amor em tempos de ódio, contagiando o público (super diverso em gênero, raça e idade), que a respondia fervorosamente em todos os momentos.

Com seu disco anterior, A Mulher do Fim do Mundo, que lhe rendeu um Grammy Latino de melhor álbum de música popular brasileira, Elza se conectou com um público novo, virtual, necessitado de referência e representatividade. Hoje, com seus quase 70 anos de carreira, a artista, com o disco Deus é Mulher, reforçou seu lugar de fala e atinge cada fez mais todas as faixas etárias – consolidando-se como porta-voz de um povo faminto por discursos coerentes e letras que falem sobre o empoderamento da mulher, a força dos negros, o direito das minorias; letras que falem sobre dar, comer, denunciar, gritar; letras que são puro sentimento e verdade quando saem de sua boca.

 

Elza Soares, a neta e bisneta de escravas, a mulher, mãe, a encaixotadora, a cantora, aquela que não foi levada à sério, aquela que, entre deboches e risadas, respondeu que veio do “planeta fome”, a artista gigantesca, a ativista, a mulher do fim do mundo, a voz do milênio, a doutora honoris causa: que privilégio vê-la ali, diante de mim, cantando ao vivo. Obrigada, Elza.

 

 

Antes tarde do que muito mais tarde, resolvi fazer um resumão de todos os shows que vi durante os 6 meses que passei em Montreal (3 shows – The Interrupters, Rat Boy e Masked Intruder – vi em Quebec City, e outros 2 shows – The Creepshow e Quinzelle – foram em Ottawa).

Os que já estão publicados aqui no blog são aqueles em que fui credenciada como imprensa; os outros, como não encontrei tempo para escrever e postar (atividades, prazos e relatórios do doutorado-sanduíche, sabem como é), vou escrever rapidamente neste post. A ideia é fazer um registro, mesmo, apenas uma lista com links para as bandas, caso alguém tenha interesse em ouvir. Dos shows que mais me impressionaram, vou fazer alguns comentários – nada muito crítico ou aprofundado.

Vale lembrar que Montreal é uma cidade conhecida por seus festivais de música. Além dos festivais, é uma cidade onde rolam dezenas de shows absolutamente t-o-d-o-s os dias. Eu passei o inverno lá – quando teoricamente qualquer cidade dá uma hibernada e, afinal, peguei temperaturas de -30ºC (feels like -35ºC) –, e mesmo assim tive que escolher no que não ir. E no início de 2019 precisei focar em todas as chamadas de artigos e eventos científicos, então não consegui ver nada durante janeiro e fevereiro.

Por uma questão de ordem, vou listar todos os shows, e os que já estão postados, vou colar o link para o texto 😊

2018

10 de novembro: Stiff Little Fingers (abertura: The Mahones)

22, 23 e 24 de novembro: Montreal Ska Festival com Danny Rebel & The KGB, The Hangers, Foolish, The Planet Smashers, The Dreadnoughts, The Sentries, Rub-a-Dub Rebels, The Void Union, The Peelers e The Classy Wrecks.

8 de dezembro: K-Man & The 45s, Sprankton, The Slums, The Cardboard Crowns

13 de dezembro: The Lef7overs, Lousy Riders, Muffler Crunch e Nightwiches. Ponto alto, na minha opinião, para The Lef7overs, que pude ver novamente em 22/03/19, e Muffler Crunch, um duo pesadíssimo composto por Angie “The Barbarian” na bateria/voz e Luc Lavigne (guitarra/voz). Vale pesquisar, ver vídeos – ao vivo, de preferência. Baita performance, acreditem.

2019

8 de março: Danny Rebel & KGB. Já tinha visto a banda no Montreal Ska Festival, mas neste dia, no Hurley’s Irish Pub, o som estava muito melhor. A banda é ótima, tem ótimos discos. Vale a pena procurar.

1

Pixies (Foto: Carol Govari Nunes)

13 de março: Pixies e Weezer (abertura: Basement). Os shows aconteceram no Centre Bell, ginásio onde ocorrem as partidas de hóquei e também shows grande em Montreal (comporta mais de 30 mil pessoas). O show do Pixies entrou no Top 5 dos melhores shows que já vi até hoje. A banda nunca esteve entre as minhas favoritas, mas fiquei realmente impressionada com a precisão e perfeição da execução das músicas. Um show incrível. O do Weezer foi um show muito bom, em termos técnicos, mas que não me emocionou. (E talvez eu tenha ficado tão impactada com o Pixies que nem tenha conseguido dar a devida atenção ao Weezer)

15 de março: The Sentries (que eu já tinha visto no Montreal Ska Festival. É uma big band com um bom repertório e um bom show) e The Beatdown

IMG_0565

The Interrupters (Foto: Carol Govari Nunes)

19 de março: The Interrupters, banda de ska-punk, uma das minhas preferidas, atualmente. A abertura ficou por conta do Rat Boy e Masked Intruder. O show do The Interrupters foi ótimo, superdivertido, pra cima, como todas as músicas dos 3 discos (todos produzidos pelo Tim Armstrong e lançados pela Hellcat Records, vale apontar). Os irmãos Binova se destacam muito mais do que Aimee “Interrupter” Allen, vocalista da banda, mas é um show que funciona bem.

22 de março: Mustard Plug, PLMafia e The Let7overs

23 de março: Amanda Fucking Palmer. Bom, o texto tá todo ali, mostrando que eu fiquei de cama depois desse show. É totalmente um exagero e parece mentira: mas sim, fiquei destruída. É um texto enorme, emotivo, que eu escrevi porque precisava escrever. Hoje estou ótima, recuperada, apenas com as cicatrizes. Fazer o que, né? Alguns shows causam esse impacto em mim.  ¯\_(ツ)_/¯

26 de março: David Rourke Trio (com André Withe e Eric Lagagé) e outras duas bandas de jazz de estudantes da McGill University.

56675181_2392809877397266_5387841545741271040_o

The Creepshow (Foto: Carol Govari Nunes)

3 de abril: Concordia Jazz Students – uma jam session com duas bandas de estudantes da Concordia University. Duas vezes por semana os estudantes se reúnem para essa jam no Upstairs, um ótimo bar de jazz que tem em Montreal.

6 de abril: The Creepshow – banda de psychobilly, com ótimos discos, mas um show beeem morno (pelo menos nesse dia) e Quinzelle.

Bom, é isso 🙂

Até o próximo show – agora no Brasil.

 

Na última sexta-feira, 22 de março, a banda Mustard Plug passou pelo Foufounes Électriques, em Montreal, durante sua canadian tour 2019.

WhatsApp Image 2019-03-25 at 19.22.59

The Lef7overs (Foto: Carol G. Nunes)

Quem abriu a noite foi The Lef7overs, uma banda feminina de punk/rock/metal. Formada por Meghan Mulvaney (vocais), Victoria Turner (guitarra, backing vocal), Carol Ribeiro (guitarra, backing vocal), Belgin Odyakmaz (baixo) e Jordano D’Alesio (bateria), a banda, que é natural de Montreal, traz fortes influências do movimento Riot Grrrl da década de 90, além de uma sonoridade que se assemelha bastante com L7, Joan Jett, The Runaways, Bikini Kill, Sepultura, Pantera, entre outras bandas de punk e metal.

O show começou pouco depois das 20h, com um público ainda tímido, mas que aos poucos foi se direcionando para a frente do palco. Diferente da vez que eu tinha visto a banda no Barfly, em dezembro do ano passado – provavelmente ocasionado, em boa parte, pela estrutura do bar (em algum momento eu vou escrever sobre todos os shows que vi aqui em Montreal. Não sei quando, mas vou) –, a Lef7overs fez um show cheio de atitude, totalmente enérgico, divertido e, possivelmente, o mais coeso da noite. Foi um show curto, mas bem redondo, que tu entende o que a banda está fazendo. Eu gosto de shows assim.

A banda tem uma demo, Massive Freakout, que foi lançada em novembro de 2018. As faixas são: “She Don’t Want That Bro”, “Good Friends” e “Massive Freakout” e estão disponíveis no https://thelef7overs.bandcamp.com/. Tem também a fanpage das gurias, onde há várias fotos, vídeos e outras informações.

WhatsApp Image 2019-03-25 at 19.23.49

PL Mafia (Foto: Carol G. Nunes)

Na sequência, foi a vez da PL Mafia, uma banda de ska punk, também de Montreal, que é formada por Emilie Bourguignon (trompete), Mike Gabriel (baixo), Alexis Granger (voz, guitarra), Karl Houde (bateria, voz), Mario Ouellet (trombone, voz) e Patrick Lebeau (guitarra). A PL Mafia começou suas atividades em 2003 e tem três discos lançados: Opération: Porto (2005), Le Kid (2009) e Lendemain de veille (2012). Foi um show mais barulhento que o anterior, bastante viril e com boa adesão do público, que finalmente estava lotando a casa de show.

Mustard Plug, principal atração da noite, é uma banda ska punk de Grand Rapids (Michigan) e composta por David Kirchgessner (vocal), Brendon Jenson (trompete), Jim Hofer (trombone), Nate Cohn (bateria), Colin Clive (guitarra e vocal) e Rick Johnson (baixo). A banda foi formada em 1991 e desde então tem excursionado regularmente pela Europa, Japão, América do Sul e América do Norte.

IMG_0839

Mustard Plug (Foto: Carol G. Nunes)

Com sete álbuns na bagagem (Skapocalypse Now! [1992], Big Daddy Multitude [1993], Evildoers Beware! [1997], Pray for Mojo [1999], Yellow No. 5 [2002], Masterpieces: 1991-2002 [2005], In Black and White [2007], Can’t Contain It [2014]), o Mustard Plug fez um show divertido, muito animado e totalmente para dançar. Rolaram moshs e rodas por todo lado, o tempo todo. Foi isso, inclusive, que o vocalista David Kirchgessner disse logo no começo do show: eles estavam ali com o intuito de que as pessoas relaxassem e se divertissem – assim como eles, claro, que amam o que fazem e também gostam de se divertir.

No Spotify vocês encontram todos os discos do Mustard Plug. Ah, dois discos da PL Mafia também estão disponíveis no Spotify, é só clicar aqui.