Archive for the ‘Hip Hop’ Category

Na última quinta-feira, 24 de novembro, a banda Ultramen subiu ao palco do Opinião para lançar o DVD Máquina do Tempo, gravado 8 anos atrás naquele mesmo palco.

Além do lançamento do DVD, o show marcou a comemoração dos 25 anos da banda, que tem 4 discos de estúdio lançados e intercalou sucessos de todos os álbuns, além de “Robot Baby”, composição inédita do grupo. Pouco antes do show começar, o público assistiu a um vídeo do Mestre Guitarreiro Luis Vagner contra o fechamento da TVE e FM Cultura, movimento que a Ultramen também faz parte e endossou essa posição durante boa parte do show, principalmente no bis, quando todos os músicos voltaram com a camiseta “Salve salve a TVE e a FM Cultura” e Tonho Crocco disse que o medo dele – e da banda – não é perder espaço na mídia, mas sim perder a Fundação Piratini, essencial para bandas independentes, artes cênicas e cultura em geral.

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Interação entre banda e público foi intensa durante toda a noite (Foto: Carol G. Nunes)

Mas retomando o início do show, que começou com “Tubarãozinho” (depois da “Intro”, seguindo a mesma ordem do DVD), e seguiu com clássicos da banda como “Grama Verde”, “Bico de Luz”, “Dívida”, “General”, “Preserve”, “Máquina do Tempo” e outras várias faixas que estão no DVD, tivemos uma noite com uma energia incrível e público super presente. Aliás, o público era bem mais diversificado do que o do último show que eu tinha visto da Ultramen, no ano passado. Gente de todas as faixas etárias e cores e sabores e amores lotaram o Opinião. Sem cotoveladas e sem empurra-empurra. Andei umas 5 vezes pelo bar, de ponta a ponta, e apesar de estar bem difícil de se locomover por causa da quantidade de pessoas, ninguém trancava a passagem ou te olhava de cara feia. Acho que um público também faz o show. Eu sou jornalista, mas eu também sou público. Eu gosto de circular, de observar – ainda não perdi isso da etnografia, confesso –, e shows da Ultramen são sempre interessantes – do ponto de vista jornalístico e também do ponto de vista etnográfico.

Várias participações também rolaram durante a noite: Buiu em “Esse é o Meu Compromisso”, Manos do Rap (rapper Du e Curumano) em “Erga Suas Mãos”, PX em “Peleia” e o Gibão, batera da Comunidade Nin-Jitsu entrou em “Hip Hop Beatbox com vocal e James Brown”.

O DVD Máquina do Tempo está disponível no youtube e você também pode comprá-lo no site da HBB Store.

A Galáxia de Tonho Crocco

Antes tarde do que mais tarde:

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BNegão participou em “Baobá” e “Dívida” (Foto: Carol G. Nunes)

No dia 20 de outubro, no Theatro São Pedro, em Porto Alegre, Tonho Crocco lançou o baita disco Das Galáxias. Com participação de BNegão em “Baobá” e acompanhado da in-crí-vel banda Partenon 80, Tonho tocou todas as faixas do disco Das Galáxias e faixas d’O lado brilhante da lua, além de algumas músicas da Ultramen. Além de BNegão, PX também fez uma participação especial em “Peleia”, junto com o mini-sobrinho de Tonho, que estava de aniversário, e matou a pau na coreografia de “Peleia” 🙂

O projeto foi contemplado pelo edital Natura Musical Rio Grande do Sul e já teve seus shows de lançamento por Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro. Vi na agenda que em dezembro eles vão tocar de novo em Porto Alegre e a dica é: vale conferir, pois o show é incrível, muito bem produzido e formatado.

Você pode baixar o Das Galáxias no site da Natura. O disco também está disponível em CD e vinil (comprei o vinil e o som é uma beleza, vale o investimento!).

 

Carol Govari Nunes@carolgnunes

O bar Opinião abriu a temporada de shows 2016 com duas noites de ingressos esgotados: Criolo, nos dias 3 e 4 de março, celebrou os 10 anos do disco Ainda Há Tempo com um formato totalmente hip hop, somente com DJ e MC no palco.

Criolo contou a história do Ainda Há Tempo: disse que, na época em que foi lançado, eles não tinham dinheiro nem para fazer uma festa para os amigos, por isso a importância dessa turnê. O rapper conversou com o público o tempo todo – ele e o DJ Dan Dan conduziram a celebração/culto/missa/show/entenda-como-quiser de forma afirmativa (e com muito amor, agradecendo a presença de cada um que estava ali), emocionando os fãs durante os 90 minutos em que estiveram no palco. Quem acompanha Criolo, além do DJ Dan Dan (que, na ocasião, fez papel de MC), é DJ Marco, responsável pelas pick-ups. Quem estava controlando o P.A era Daniel Ganjaman (que assina a direção musical do show), chamando tanta atenção ali da cabine como se estivesse no palco. A turnê conta com um cenário produzido pelo artista plástico Alexandre Órion, que criou todas as imagens projetadas num baita telão de LED, enriquecendo visualmente show.

Além das músicas do Ainda Há Tempo, Criolo também tocou músicas dos discos Nó na Orelha e Convoque seu Buda.  Um dos pontos altos (altos no sentido sonoro, mesmo, praticamente ensurdecedor) foi quando o DJ Dan Dan levantou uma placa com os dizeres “3,75 NÃO!”. Criolo, neste momento (e em vários momentos do show), falou da importância da união, da importância de lutar. Era ovacionado constantemente. Eu vou a vários shows, mas nunca – nunca – tinha visto n a d a p a r e c i d o. O show vale pela experiência de observar o poder de condução de um artista e a devoção de seu público. É praticamente impossível não sair convertido dali. Talvez algumas pessoas perdidas (que não são más, como ele mesmo afirma na letra de “Ainda Há Tempo”), desconfiadas e relutantes em enxergar tanto amor e tanta esperança, mas a impressão que tive é de que 95% seguia fielmente – pelo menos no fervor do show – o que Criolo falava. Foi realmente impressionante.

Abaixo, um dos momentos do show, durante a música Grajauex, no dia 4:

Carol G. Nunes@carolgnunes

Na semana da consciência negra, o projeto Domingo no Parque promoveu a tarde de música afro-gaúcha, onde Richard Serraria, músico e pesquisador, apresentou um repertório baseado em canções que priorizam tematicamente a presença negra em Porto Alegre.

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O Bataclã FC fechou a tarde de música afro-gaúcha (Foto: Carol G. Nunes)

Cheio de convidados especiais, o show “Mais tambor, menos motor” animou a tarde de ontem, 22, no Auditório Oi Araújo Vianna. Foi incrível, emocionante. Há tempos eu estava tentando ir a algum show do Richard Serraria, então acho que dei muita sorte de pegar seus três projetos numa única tarde: Alabê Ôni, o grupo percussivo, de raiz africana no sangue, na cultura e espiritualidade, que abriu a tarde; o Pampa Esquema Novo, um disco lindo, com o qual eu tinha mais familiaridade, que trata da fusão de ritmos e gêneros envolvendo a poesia no formato canção com base na africanidade do cone sul; e o Bataclã FC, que faz uma fusão de rock, samba, funk, hip hop e música regionalista – tudo isso com muito peso e poesia.

Entre os convidados, Tonho Crocco, Andréa Cavalheiro, Marcelo Delacroix, Paulo Dionísio, Mini Bateria dos Imperadores do Samba, Ronald Augusto, Kaubi Tavares, La Uruleyra e Lilian Rocha (sério, o que foi aquela declamação – ou mastigação – da Lilian Rocha? To arrepiada até agora).

Os três trabalhos de Richard estão totalmente ativos: Alabê Ôni está fazendo a divulgação de um DVD, o Pampa Esquema Novo está com CD e o Bataclã FC acaba de lançar disco novo. Inclusive, dia 28, próximo sábado, tem show de lançamento do disco “A teimosia da felicidade” (Bataclã FC & Mastigadores de Poesia), no Espaço Cultural 512 (João Alfredo, 512), em Porto Alegre.

O repertório do show “Mais tambor, menos motor” foi esse:

  1. Aré para Bará (a capela, entrando no palco)
  2. Toborine (declamação Ronald Augusto)
  3. Alabe Oni (canto e dança Pingo)
  4. Cantos de Macambique e Quicumbi (Mimmo e Serra)
  5. Milongón e Chicalatum (canto Mimmo)
  6. Pampa Esquema Novo (Serraria e Andrea Cavalheiro)
  7. Giba Gigante Negão (Serraria e Paulo Dionísio)
  8. O Jangadeiro não sabe nadar (Serra e Andrea Cavalheiro)
  9. Doce amor se fez samba puro (Serraria, Delacroix e Andrea Cavalheiro)
  10. Só se for só
  11. Um bonde chamado desejo (Serraria e Tonho Crocco)
  12. Jaqueline Negadiaba (Andréa Cavalheiro e Marcelo Delacroix)
  13. Dread Lock (Paulo Dionisio)
  14. Bate bate forte o tambor (Kauby Tavares, Andrea Cavalheiro e Serraria)
  15. Crenças a céu aberto (BFC e Lilian Rocha)
  16. Menino Pandeiro (BFC e Andrea Cavalheiro)
  17. Barulhinho Bom (BFC e Marcelo Cougo)
  18. Quem é dusmeu vem junto (BFC, Andrea Cavalheiro e Tonho Crocco)
  19. Cabelo Pixaim (BFC, Angelo Primon, Ronald Augusto, La Uruleyra e Primon)

Quem esteve ontem no Auditório Oi Araújo Vianna pode prestigiar Richard Serraria, Tonho Crocco, Marcelo Delacroix e toda essa gente talentosa numa festa incrível de música e poesia – e de graça. Quem não foi, perdeu muito, acreditem. Essa celebração da música afro-gaúcha vai ficar marcada na história de Porto Alegre.

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Final do show Mais Tambor, Menos Motor, com todos os participantes no palco (Foto: Carol G. Nunes)

Sei que ainda vai rolar muita coisa massa no Domingo no Parque e acho que prestigiar os artistas locais é mínimo que a gente tem a fazer. São tardes de música gratuita, onde circula informação, cultura e muito aprendizado. Eu saí de lá sabendo coisas que eu não sabia antes de entrar. E vai ter tarde de samba, reggae, Império da Lã, Cantoras Gaúchas e outros inúmeros artistas ainda em 2015 e durante 2016: é só se ligar no site do projeto.

Carol G. Nunes@carolgnunes

Acho que o Emicida foi o primeiro rapper nacional por quem eu realmente me interessei. Lembro de ter achado ele massa na premiação do VMB, em 2011, mas o que realmente me pegou foi O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui. Fiquei comovida a cada rima, a cada estrofe, a cada batida; daí pra frente, foi garimpar as mixtapes anteriores na internet e minha forma de ver a vida mudou.

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Emicida lotou o Opinião em show de lançamento do novo disco (Foto: Carol G. Nunes)

Em 2015, outro disco sensacional (pra mim, um do melhores do ano): Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa. Que pedrada. Que coisa sensacional essa junção dos tambores africanos com as batidas do rap. E foi esse disco que trouxe Emicida a Porto Alegre na última quinta-feira, dia 12, para um show emocionante e de renovar as energias. Um Opinião lotado aguardava o rapper, que foi ovacionado assim apareceu no palco.

Em momento algum Emicida me parece um artista solo: sua banda (que banda!) é extremamente participativa, dançando (inclusive no centro do palco, ao som do DJ Nyack), sorrindo e interagindo uns com os outros e com o público. É lindo. O show foi catártico, principalmente em músicas como 8, Boa Esperança, Bang!, Levanta e Anda, Hoje Cedo e Mandume. Teve também Cartola, trechos de poesia (que eu adoraria lembrar de quem era), Marinheiro Só na palma da mão, muita rima e muita conversa.

Emicida falou da necessidade de dialogar mais – sair das redes sociais, olhar no olho das pessoas. Antes de Mãe, aquela música que é quase impossível não chorar, falou que se tu não respeita a tua mãe, tu não respeita nem a ti mesmo. Comentou sobre o show ser no dia mundial do hip hop, lembrou dos que morreram pra eles estarem ali fazendo som, e também lembrou da galera que fala que o rap se vendeu, que o rap agora aparece na TV, mas que ninguém foi na favela, há 20 anos, perguntar como eles estavam (além disso, os que criticam e não querem dinheiro “é porque nunca viu a barriga roncar mais alto do que ‘eu te amo’”, não é mesmo?).

Ainda hoje, ao comentar que eu gosto do Emicida, algumas pessoas falam: “como tu se identifica tanto se não faz ideia do que ele está cantando?”. De fato, eu não faço ideia. Não faço ideia do que é ver um vidro subir ou alguém correr quando me vê, não faço ideia do que é passar fome, não faço ideia de como é crescer onde nem erva daninha vinga. Sou branca, classe-média, estudei em escola particular e entrei numa universidade pública porque fiz cursinho (o cursinho é a minha cota). Emicida elucida inúmeras questões sobre preconceito racial, inclusive na faculdade (em que não pode por os pés). É preciso que isso seja falado. É preciso que a gente pare de mascarar o racismo. É preciso que a gente assuma que, sim, brancos têm mais oportunidades. E tudo isso que ele canta faz com o meu peito seja preenchido por um calor absurdo, meus pelos se arrepiem e eu sinta vontade de chorar a cada história contada em suas músicas. Música desperta, música emociona, música aproxima; música é a minha – a nossa – religião.

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Durante todo o show, entre as músicas, Emicida conversou com o público (Foto: Carol G. Nunes)

Acho que a música proporciona um exercício de alteridade extraordinário e necessário – de tu se colocar no lugar do outro, de aprender com a diferença e respeitar essas diferenças – afinal, eu só existo através do contato com o outro. Além disso, “eu sou porque nós somos”, a tal filosofia africana Ubuntu (que fala da capacidade humana de compreender, aceitar e tratar bem o outro, ser generoso, solidário, ter compaixão), que eu fui pesquisar por causa de algum tweet do Emicida.

Rappin Hodd, Racionais Mcs, Sabotage, Sistema Negro, Xis, Criolo, Emicida (só para citar alguns); todos falam de coisas que não faço ideia, todos despertam em mim um desejo sincero de harmonia e igualdade entre os seres humanos.

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Isso era pra ser uma resenha do show do Emicida, mas acabou desviando do rumo inicial e indo pra longe. Falando nisso, pra quem já mordeu um cachorro por comida, acredito que o Emicida ainda vai chegar muito, muito mais longe.

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Aqui também tem o vídeo de Passarinhos, gravado especialmente pro meu sobrinho Bernardo, de 11 meses, que é viciado nessa música. Tentei todas as canções de ninar, inclusive os rockabye baby, mas o guri prefere rap nacional, vou fazer o quê?