Música instrumental e sua busca incansável pelo espaço na internet

Posted: 27/04/2015 in Jornalismo, Música instrumental, Produção, Rock
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* Ellen Visitário e Letícia Mota

A internet é uma explosão de possibilidades para o reconhecimento no meio artístico, seja você um comediante nato, um crítico de cinema, ou um acidente dessa rede popular. Para todos os casos, os vídeos postados pelos internautas no YouTube ganharam uma consolidação e visibilidade midiática tão grande quanto aparecer na televisão. O que bomba na internet torna-se mais do que conhecido, torna-se popular.

Possuímos uma visão arcaica sobre músicas clássicas, ou estereotipamos um conceito em que ela geralmente está embasada se for relacionada a massagens relaxantes. Evoluímos tanto durante os anos, porém, continuamos com preconceito com gêneros que não são habituais aos nossos ouvidos. Vamos desmistificar esse conceito e mostrar que existe espaço para todos.

A música instrumental vem ganhando um lugar na internet, não que seja o processo mais fácil para aceitação popular, mas o meio virtual vem cedendo espaço para os interessados de plantão em conhecer coisas boas, diferentes e abrangentes ao olhar, ou melhor, dizendo, aos ouvidos.

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Marcelo Costa (Foto: Liliane Callegari)

É dessa forma diversificada que o jornalista e editor do Scream & Yell, Marcelo Costa, destaca a sua visão crítica sobre esse determinado gênero.

Em um bate-papo virtual, Marcelo aborda que o preconceito não surge pelo fato de reconhecermos o espaço que está sendo adquirido pela música instrumental, e sim, pela falta de percepção em permitir que a música nos envolva como qualquer outra, mesmo não contendo verbos. Inclui, também, em sua ressalva, que esse gênero tem mudado com o passar do tempo graças ao acesso à internet que ganhamos há um pouco mais de duas décadas, embora tenha a música associada em outros meios para que ocorra o interesse crescente do público. “A dificuldade está na cabeça das pessoas, e não na música”.

Além do mais, Marcelo Costa nos escreve com um olhar apurado sobre a repercussão dos internautas que acessam o Scream & Yell – um espaço dedicado, sobretudo, ao jornalismo cultural e que está no ar há 15 anos – ao se depararem com a música instrumental. Ele acredita que, cada vez mais, os leitores não se interessam, diretamente, se a música é ou não instrumental, mas sim, o que essa mesma música transmite a eles. E defende que, desse modo, as bandas instrumentais mais famosas sempre causam bastante burburinho, mas ninguém exclama se essa ou aquela faixa instrumental é boa, e sim, por exemplo, que a música do Mogwai é sensacional. Contudo, conclui que mesmo que o site tenha se consolidado com o passar dos anos, o público já atravessou – e atravessa – pontes de amadurecimento. Complementa que o leitor está mais atencioso com as nuances da música, e não se tem alguém cantando por de trás de uma interpretação.

Para exemplificarmos com melhor intensidade esta relação entre o artista e o público, convidamos o guitarrista da banda instrumental Camarones Orquestra Guitarrística para nos contar sobre a sua experiência na estrada com a arte que ele conduz. Objetivo e transparente com as palavras escritas em um corpo de e-mail, Anderson Foca afirma que o grupo de rock instrumental tem vários feedbacks sobre os shows e os CDs já lançados, principalmente de pessoas comuns não ligadas a determinada cena musical ou conceitual. Mesmo que a internet esteja disponível para qualquer tipo de divulgação, a banda prioriza os shows das turnês que duram em média de 120 a 150 dias no ano, e, a seu ver, continua sendo o único jeito de aproximar fãs de músicas reais à sua banda, tornando o projeto viável do ponto de vista financeiro.

Ao ser questionado sobre a iniciativa de lançar determinado conteúdo artístico na internet, podendo – ou não – quebrar os paradigmas de preconceito popular, o integrante da banda nascida no Rio Grande do Norte não hesita em afirmar que as bandas instrumentais não saídas do erudito ou das escolas de música, contribuem com um papel fundamental na popularização da música instrumental no país afora. E retrata que até seis ou sete anos atrás era impossível encontrar uma banda instrumental num LineUp de um festival; mas que, nos dias atuais, isso vem se realçando em um modo positivo à sua crítica.

Sem título

Chuck Hipolitho no Estúdio Costella (Foto: Ellen Visitário)

Quem nos dá a chance de perceber os lados emblemáticos desse gênero é o produtor musical e vocalista da banda Vespas Mandarinas, Chuck Hipolitho.  Em seu Estúdio Costella, localizado no bairro Vila Madalena, em São Paulo, Chuck nos recepciona e demonstra com a sua lábia que não há “regras” que determinem a arte de exercer e cumprir com o seu papel em emocionar o seu espectador. “A música é linda por si só. As pessoas não precisam ficar se preocupando com vocal ou instrumental”, completa. O produtor, que busca em sua memória a única experiência que teve ao produzir uma das obras da banda instrumental Camarones Orquestra Guitarrística em seu estúdio com cores abstratas, relata que, conhecendo o Foca, tem a convicção de que ele iniciou a banda porque sabia que a dificuldade de lidar com a parte vocal, no circuito underground, é complexa e assim ele podia dar razão às melodias dele de maneira instrumental e intuitiva.

Ainda com a total certeza, Chuck realça que o Camarones é uma banda que basta chegar e se apresentar em qualquer lugar, porque não precisa de determinado sistema técnico para conduzi-la, pois a banda pode até mesmo se apresentar com um equipamento de ensaio, por exemplo. Mesmo que aparente ser algo “mais fácil” ao vivo, Chuck Hipolitho emplaca que o importante é a música emocionar e interagir entre o artista e o público. Mas, pontua, especificadamente na música instrumental, que a internet é uma ferramenta fundamental para propagar a sua sonoridade. Se não houvesse esse meio de divulgar um determinado material, o músico, em si, voltaria no tempo e promoveria a sua obra da forma clássica como em revistas especializadas, emissoras de rádio e de televisão. Já os riscos que a internet causa no meio de uma geração conectada é o formato da pirataria, que desconstrói o conteúdo cultural.

Mesmo que a internet seja considerada uma “faca de dois gumes” no mundo dos espertos, Chuck Hipolitho retrata o modo como músico, independente do segmento, chega ao Estúdio Costella: é através da internet. Construído em 2008, o Costella é considerado um espaço democrático, onde o artista tem a total liberdade de fazer o que ele bem entender, porque, até mesmo, como diz o seu criador: “O que importa é sentir a música”.

 E retratando-se da importância de sentir, quem nos conta sobre o início de seu interesse com a música instrumental é o Márcio Viana. Formado em jornalismo na Universidade Bandeirante de São Paulo, o morador do bairro de Santa Cecília recorda-se de que seu gosto por esse determinado estilo musical começou, involuntariamente, com os LPs que o seu pai, à época trabalhava como prensista, trazia mensalmente da RCA-Victor; e ainda assim, relembra de seu primeiro disco de música instrumental que comprou já na adolescência, um do The Dave Brubeck Quartet, “Time out”, mas confessa que só recentemente, pela internet, se interessou em ouvir mais e produzir a sua própria música instrumental. No papo intimista, o jornalista nos detalha que não foi uma situação muito planejada ao perguntarmos o que o fez escolher o caminho da internet para a divulgação dos seus trabalhos artísticos, e, na verdade, ele começa a criar música com loops e divulgar para os amigos na plataforma Soundcloud. Porém, ele admite que a empolgação aumentou com os resultados e, então, resolveu montar uns álbuns virtuais para organizar o conteúdo. Já sobre o retorno esperado com essa divulgação, o Márcio replica: “Na real, não crio expectativa, porque é um viés do meu trabalho. A ideia é manter como um projeto paralelo, e divulgar por meio das redes sociais. Acho que é uma forma de manter o público fiel, de certo modo”.

Quando perguntamos sobre o futuro, Marcio Viana prioriza aos estudos de produzir melhor o que já está encaminhado além desse projeto, mas que investir em um CD físico não seria a sua prioridade no momento em relação aos custos, embora, pontua que se sente confortável com o esquema atual de divulgação e disponibilidade das suas músicas instrumentais.

* Ellen Visitário e Letícia Mota são estudantes do 3º período de Jornalismo, no Centro Universitário FIAM FAAM, em São Paulo/SP. E-mails para contato: ellenrodriguesvisitario@gmail.comleticia_ferreira_mota@hotmail.com

 

Comentários
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