Pitty sem domador

Posted: 01/04/2015 in Lançamentos, Rock, Videoclipes
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Carol Govari Nunes@carolgnunes

O que vocês fazem quando precisam respirar? O que vocês fazem quando o trabalho não anda?

Eu, quando não consigo escrever uma linha a mais sequer, quando não aguento mais ouvir a discografia de uma banda para entender sua(s) identidade(s), recorro a outro tipo de arte para respirar e tentar voltar ao trabalho. E escrever sobre isso acaba sendo inevitável.

Então este texto é só para isso: para respirar. Não vou pensar, não vou analisar, não vou entrevistar ninguém. Ando exausta de só pensar, pensar, pensar, pensar e muitas vezes me preocupo se vou conseguir assistir a um show, a um clipe, a um documentário – qualquer coisa – sem analisar cada detalhe. É infernal. Mas eu não quero falar sobre isso. Eu quero falar sobre reações, sobre sentimentos.

Eu quero falar sobre o clipe de “Um Leão”, da Pitty, dirigido por Ricardo Spencer. Quando eu soube que havia sido gravado, em uma conversa com o próprio diretor, o assunto passou batido. Naquela época eu já não queria muito saber. Imaginar é mais interessante do que saber. Falávamos sobre o The Charles Bukowski Tapes, seus atuais projetos, minha pesquisa, sonhos, Barcelona, assuntos que não se cruzavam (mas faziam todo sentido) e nossa conversa foi interrompida pela necessidade de fazer carinho em Yuki, seu cão de 13 ou 14 anos. Quando o clipe foi lançado, tive o impulso de enviar uma mensagem pra ele, perguntando sobre a gravação – afinal, ainda tenho alguns resquícios do jornalismo e sou terrivelmente curiosa –, mas não mandei. Escrevi, apaguei. Escrevi umas três vezes e apaguei. Decidi ficar com a arte por si só, sem esmiuçar nada. Sou obcecada por behind the scenes, entrevistas reveladoras e sempre quero saber como tudo aconteceu. Dessa vez, não.

Dessa vez, só a sensibilidade do olhar de Spencer, só a performance de Pitty, só as câmeras nervosas, só a fotografia brutal: só o clipe. Bicho solto, fora da jaula – sem domador. Ele começa calmo, meio que reconhecendo o habitat. A gente quase não vê o bicho terminar um movimento inteiro. Muitas vezes, não vemos o seu rosto, pois as imagens são desfocadas. Limpo a tela; não adianta. Há um jogo de contraluz que cega. Um contraste que instiga. Sombras. Eu tento caçar; não pego nada. O bicho não para. Ele vai, volta, gira – me tonteia com sua dança. Nada desacelera. Cerro os punhos, meu sangue ferve. Me concentro, mas ele foge. Foge o tempo todo. Não há nem como tentar adestrá-lo. Ele brinca com movimentos, provoca, não tem pudor. Penso em emboscadas, mas ele não cai – é muito ágil e sabe o que está fazendo. O delicioso sabor da perseguição, a respiração ofegante, a excitação. Em sintonia com a natureza, a arte vira um organismo vivo em movimento contínuo. Ator, acreditador. Começo predador, termino presa. Aqui, “Um Leão” não arranhou: foi golpe fatal.

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