Sou rainha do meu tanque

Posted: 08/03/2015 in Backstage, Publieditorial, Rock
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Carol Govari Nunes@carolgnunes

Meu nome é Caroline, eu tenho 26 anos, e neste dia internacional da mulher eu preciso dar o meu depoimento.

A gente passa por poucas e boas – algumas mais do que as outras, mas todas passam. Eu sou do tipo quieta, que não fica expondo pro mundo situações que me incomodam. Corajosas são as que expõem, as que gritam. Na verdade, acho que até sou bem sortuda, já que vivo num meio predominantemente masculino e a grosseria tem diminuído, com o passar do tempo. Entretanto, lembro de algumas vezes ter mandado mensagem pra Nati, mesmo, p. da vida, porque troquei telefone com algum produtor e ele só queria falar de como eu era bonita e bla bla bla. Sempre que volto pra casa sem que algum cara tenha sido grosseiro comigo, digo pro meu namorado que sinto que “venci na vida”. Parece exagero, não? E bobo, ao mesmo tempo. “Vencer na vida”. Só de ter chegado em casa sem ninguém ter me dito algo nojento. Os caras que acham uma bobagem – “ah, é só uma cantada” – não têm a menor ideia do que é essa sensação tola de “vencer na vida”.

Circulo pelo meio musical desde os 11 anos – vou a shows, festivais e desde sempre tive “dificuldades” em ir pra casa depois de o show terminar (isto é, fico pra falar com a banda). Além disso, me criei tocando violão na rua com os guris. Sou enfiada, mesmo. Hoje, não entendo como minha mãe me deixava entrar em vans pra cidades vizinhas pra assistir a shows, ficar em camarins, mas acho que isso foi essencial pro meu amadurecimento. Tive que aprender a me cuidar desde muito cedo. Primeiro, sendo fã; depois, na graduação em jornalismo; e agora no mestrando, onde continuo pesquisando música e fazendo etnografia de shows. Acabou que, no final das contas, eu desenvolvi uma postura de “Capitão Nascimento”, como minhas amigas ainda dizem. Com as perguntas e comentários eu estou acostumada: “mas teu namorado deixa tu andar com um monte de homem?”; “não te atrapalha ser muito bonita?”; “como ela consegue falar com as bandas? Aposto que dá pra algum produtor”. Tenho certeza que se eu fosse homem, ninguém falaria nada disso.

Chegou uma época em que eu estava querendo que meu namorado me acompanhasse em alguns eventos. Como ele sabe que, apesar dos pesares, eu funciono melhor sozinha, me fez botar novamente as asinhas de fora e cortar a dependência/proteção que eu andava querendo ter dele. É que nem sempre é fácil. Irrita. Incomoda. Assusta. Muitas vezes, pensei: “porra, eu to aqui quieta, com uma cara de bunda, de braços cruzados, totalmente na defensiva, só ando de calça e camiseta… como isso acontece comigo?” Até perceber que o problema não era comigo. São os guris que acham que podem mexer contigo só pelo fato de tu ser uma guria. Se estiver em um camarim, aí sim, fechou todas: tu ta ali só pra isso, óbvio.

Hoje, lido bem melhor com tudo isso. Acho que a minha luta é quase inexistente perto do que outras gurias passam, e sei perfeitamente que não é só no meio onde vivo que isso acontece – muito pelo contrário, todas passam por isso – quem trabalha em jornal, por exemplo, passa por situações bem piores. Jornalistas, fisioterapeutas, enfermeiras, psicólogas, farmacêuticas, fotógrafas, artistas, publicitárias, professoras; e isso que só estou falando do meu círculo de convívio, que é relativamente de pessoas com pelo menos o terceiro grau completo, ou seja, de mulheres privilegiadas. Todo mundo enfrentando situações constrangedoras todos os dias, de todas as formas.

Mesmo assim, amo o que eu faço. Muitas que vejo comentando situações parecidas também amam o que fazem. Por isso, não desistimos.

Bom, esse depoimento são apenas coisas que passaram na minha cabeça, mas eu queria dedicar meu “parabéns” do dia a todas que lutaram e lutam muito, que não se curvam ao machismo, que sempre batalharam por seu espaço, que me inspiram com suas canções e que fazem meus dias melhores: muito, muito, muito obrigada. Rita Lee, Pitty, Nina Simone, Wanda Jackson, Darlene Love, Amy Winehouse, Amanda Palmer, Imelda May, Fernanda Takai, Nancy Sinatra, Cássia Eller, Elis Regina, Debbie Harry, Janis Joplin, Joan Jett, Aretha Franklin, Florence, Nico, Patti Smith, Rosetta Tharpe, todas todas todas TODAS – a lista é enorme, só cito algumas das minhas cantoras preferidas. Hoje, principalmente, o meu amor é todo para vocês ❤

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