Música: a conexão entre paixão e trabalho

Posted: 11/04/2011 in Entrevista, Profissão, Shows
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Bruna Molena@moleeena / Carol Govari Nunes@carolgnunes / Josefina Toniolo@jositoniolo

Sandro Viera em frente a seu estúdio, onde funcionava a antiga rádio Luz e Alegria (Foto: Bruna Molena)

Até que a música chegue a nossos ouvidos, ela passa por um processo de criação e produção que envolve inúmeros profissionais. Uma parte deles nós conhecemos muito bem: a que sobe nos palcos e dá cara à música. Porém existem muitos outros que trabalham com a música antes que ela chegue até nós, na produção e gravação, por exemplo. Um destes profissionais é o erechinense Sandro Vieira, 38 anos e residente em Frederico Westphalen. A equipe do The Backstage foi até seu estúdio conhecê-lo e conversar sobre seu trabalho.

– Na verdade eu comecei com um home studio, de brincadeira. Eu comprei minha primeira placa de som, há uns 10, 12 anos e comecei fazer alguns experimentos. Mas com o passar do tempo fui percebendo que estava gostando daquilo e que tinha mercado, então fui ampliando, evoluindo e percebi que precisava de um espaço maior e equipamentos melhores, pois a demanda pedia por isso – foi assim que Sandro Vieira começou o relato sobre o Conexão Studios, estúdio que ele montou e onde faz boa parte do trabalho sozinho.

Sandro contou que a ideia de montar um estúdio começou quando a banda Conexão Brazil foi formada: eles queriam gravar o que tocavam. Nos anos 90, não havia tanta facilidade de acesso a estúdios e gravadoras como hoje em dia, portanto o jeito era ir gravar em outras cidades. O primeiro disco da banda foi gravado em Porto Alegre no ano de 1994. No segundo disco, em 1998, o pulo foi maior: os integrantes da Conexão Brazil foram para o Rio de Janeiro gravar no Estúdio da banda Roupa Nova. Sandro comentou sobre a importância do Roupa Nova na música brasileira – eles não apenas tocam músicas, mas também produzem, masterizam seus próprios discos, mantendo uma relação de shows, estrada, estúdio, produção e gravação. Depois dessa experiência de conhecer estúdios maiores, Sandro voltou para Frederico Westphalen com a ideia fixa de montar um estúdio para que pudesse viver disso.

Os integrantes da banda Conexão Brazil, que deu início a tudo (Foto: divulgação)

– Foi em 2001, quando voltei a morar em Frederico Westphalen, que eu montei o estúdio e fui ganhando reconhecimento, já que aqui na região não há muitas pessoas que trabalhem com jingles, spots, então comecei a trabalhar principalmente com essa questão publicitária e foi aí que começou a fluir. Eu comecei oferecendo jingles para conhecidos que tinham lojas. De lá para cá, foi uma evolução muito grande porque você precisa estar sempre se atualizando – comentou o músico, que além de produzir jingles, spots, esperas telefônicas e hinos, também cria as letras, melodias, grava e finaliza os produtos que serão comercializados.

De 2001 até hoje houveram muitas mudanças no Conexão Studios: Sandro começou com o estúdio em casa, depois foi para uma sala pequena em uma rua do centro de Frederico Westphalen e,  quando percebeu que a demanda estava aumentando, se mudou para onde está há 4 anos, onde funcionava a rádio frederiquense Luz e Alegria.  A produção do estúdio pode ser dividida em duas fases: antes de instalá-lo na antiga rádio e depois. Lá as salas já estavam pré-definidas (por uma questão lógica do funcionamento da rádio) e assim ele conseguiu se organizar de fato, montando firma e todas as legalidades necessárias.

“Uma vez que você vive disso, não dá para escolher quem vai ou não gravar no seu estúdio, ter preferências musicais. Você se dedica de modo geral para qualquer produção e público”

Sobre a produção de jingles, Sandro comenta que tem clientes em Frederico Westphalen e região, Porto Alegre, Mato Grosso e Recife, mas foi só recentemente que o mercado publicitário se expandiu, até pouco tempo atrás o estúdio sobrevivia basicamente das produções feitas para o município. Para compô-los, o músico conta que cada processo é isolado, pois cada cliente teu seu perfil. Ainda diz que a produção depende muito do seu estado de espírito, que o mais complicado é a ideia inicial: “depois que tiver os acordes, só vai. Uns você entrega no dia seguinte, outros demoram 15 dias. Eu monto primeiro a letra – raramente vem primeiro a melodia – e faço praticamente tudo sozinho. Gravo baixo eletrônico, bateria eletrônica. É difícil chamar uma galera para fazer  isso, até porque envolveria mais gastos, então eu acabo chamando só quando tenho vários para entregar em um período curto”.

Quanto à parte fonográfica, o músico nos conta que há uma grande diferença entre tocar ao vivo e no estúdio: uma palhetada errada na guitarra, por exemplo, fica muito perceptível quando é captada dentro de um estúdio. Tanto é que muitas bandas só chegam no estúdio depois que já está tudo pronto, apenas para gravar as vozes, tornando tudo mais prático para todos os envolvidos – os próprios músicos do estúdio gravam com os instrumentos e dessa maneira não precisam ficar orientando bandas que na maioria das vezes não estão acostumadas com o ambiente profissional.

A banda frederiquense Datavenia durante gravação de sua música de trabalho (Foto: arquivo pessoal)

Como em qualquer outro ramo, a sobrevivência de uma gravadora também depende de dinheiro, e este é um dos pontos mais complicados para quem trabalha com música. Hoje em dia as pessoas acabam gravando músicas em seus próprios computadores, não prezando pela qualidade, o que dificulta a vida de quem tem estrutura para desenvolver este trabalho, como Sandro. Já as bandas que querem um trabalho mais qualificado ganham em qualidade e proteção à sua música, pois todos os discos gravados são documentados, possuem código de barra e tudo que é preciso para que o músico não tenha problemas com plágio.

Em relação à produção fonográfica no Conexão Studios, Sandro finaliza dizendo que a circulação de músicos no estúdio é muito diversificada: ele já gravou discos de bandas evangélicas, gauchescas, duplas sertanejas e de rock’n’roll. Porém frisa que o pessoal do rock é o que menos aparece no estúdio, pois geralmente são rapazes novos, que não possuem muito dinheiro para investir.

– Uma vez que você vive disso, não dá pra escolher quem vai ou não gravar no seu estúdio, ter preferências musicais. Você se dedica de modo geral pra qualquer produção e público. O mais complexo é que é tudo muito diferente. Aí então você precisa ter muito discernimento na hora de finalizar o trabalho.

Fliperama: um resgate da década de 80

“Hoje eu estou conseguindo botar em prática uma coisa que eu sempre tive o sonho, sempre tive o desejo de fazer.” É assim que Sandro começa contar ao The Backstage como surgiu sua banda Fliperama. Apaixonado pelos anos 80, queria montar uma banda que fizesse um tributo a essa época. Junto com seu filho Moises na bateria, Mathiel nos teclados, Lelo no baixo e Alemão na guitarra conseguiu colocar em prática mais esse plano.  Dos componentes da banda, Sandro é o único que realmente viveu os anos 80, mas garante que todos são grandes apreciadores da época: “hoje não existe roqueiro, por mais novo que seja, que não conheça isso”.

A banda promete reviver uma das décadas mais marcantes para o rock, principalmente o nacional (Foto: divulgação)

Com sucessos oitentistas como: Van Halen, Bon Jovi, Europe, Dire Straits, Barão Vermelho, Titãs, Paralamas do Sucesso e Legião Urbana, a banda promete não deixar ninguém parado. Os mais novos irão aprender a gostar e os mais velhos matarão as saudades. Por enquanto, o set list será apenas de covers, pois, segundo Sandro, no Brasil há mercado para esse tipo de som, já para composições próprias o negócio é mais competitivo. Ele não descartou a possibilidade de, no futuro, gravarem músicas com a Fliperama, mas acredita que agora não é o momento.

O show de estreia da banda Fliperama será dia 23 de abril, na Green Lounge e no dia 5 de maio eles irão tocar no Mendonças Bar e Pizzaria no lançamento do projeto Quinta Retrô. Toda primeira quinta-feira do mês a banda sobe no palco com um set list totalmente voltado para os anos 80.

– O pessoal achou a questão da quinta-feira interessante, assim o pessoal da faculdade poderá participar. Vai ser uma coisa bem light. A ideia é a banda subir no palco às 22h30min e o show ter em torno de uma hora e meia. Depois disso, mais uma hora e meia com o DJ, também com o repertório voltado para os anos 80 – comenta Sandro.

O tradicional Baile dos Anos 60 foi o que inspirou Sandro e os demais organizadores do projeto a investirem nessa ideia, que busca resgatar uma década tão importante para o cenário do rock, principalmente para o brasileiro.

Quando perguntado sobre como administra seu tempo entre a banda Conexão Brazil e a novíssima Fliperama, ele afirmou: “É legal porque dá pra eu ir mesclando as duas coisas, nas pausas da Conexão Brazil a gente vai fazendo shows com a Fliperama. A ideia é basicamente essa, vamos ver o que acontece”. As pausas a que Sandro se refere são os momentos no ano em que menos eventos acontecem como, por exemplo, bailes de formaturas.

O músico e produtor Sandro Vieira com seus instrumentos de trabalhos: teclado, computador e aparelhagem sonora (Foto: Carol Govari Nunes)

Ainda nessa relação entre as duas bandas, o músico fala que há uma grande diferença entre os tipos de público que assistem aos shows e compara seu trabalho em bailes ao de um garçom: “Lá vai ter o roqueiro, o cara que gosta de sertanejo, vai ter quem goste de dançar música gaudéria, vai ter aquele que não gosta de nada que está lá só para encher o saco e o ‘garçom musical’ que tem que dar conta de tudo isso”. Já com a Fliperama, ele acredita que será diferente, pois as pessoas vão para o local com uma ideia do que irão ouvir, então a postura do público é outra, possibilitando maior liberdade para os músicos.

No final da conversa com o The Backstage, Sandro, em algumas palavras, deixou claro o motivo de seu trabalho dar certo ao longo desses anos:

“É desgastante, mas é nosso ofício. Só sei fazer música, vivo da música, criei dois filhos só da música. Claro que tem os pontos positivos e os negativos, mas acho que lá no ‘fritar das batatinhas’ a gente é apaixonado pelo que faz, acima de qualquer coisa. Quem faz o que gosta está de férias, não é tanto assim, mas é melhor se esforçar um pouco fazendo o que você gosta do que em algo que você não se identifica.”

Com certeza o segredo dos bons resultados é a dedicação que fica evidente nesse último trecho da nossa conversa e que sintetiza toda nossa entrevista. Se você gosta dos anos 80, ou apenas aprecia boa música e quer conhecer o trabalho da Fliperama, fica ligado na agenda dos caras. O convite está feito em nome da banda e do The Backstage.

Comentários
  1. DIEGO ROCHA diz:

    O Sandro é o cara no mundo da música!
    Não foi a toa que entreguei a animação da festa do meu casamento pra Conexão Brazil. Os caras fazem som com vontade!!
    Sucesso!!!!

  2. […] muitos garotos na faixa dos 20. Toda sua carreira na música (ele já conversou com o The Backstage sobre o seu trabalho), misturada com o amor já declarado pelos anos 80 fez com que isso […]

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