“Na verdade, a gente tem banda pra não ter Alzheimer” – brinca Carlinhos, vocalista da Bidê ou Balde

Posted: 13/12/2010 in Backstage, Entrevista, Shows
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Carol Govari Nunes@carolgnunes

Na última sexta-feira, dia 10, a Bidê ou Balde esteve em Frederico Westphalen apresentando seus antigos e novos sucessos. Por volta das 23h30min da mesma sexta-feira, Chico Bretanha, produtor da banda, entrou em contato comigo (quase que por engano, mas isso não vem ao caso) e depois de 3 minutos de ligação recebi o convite para ir com a banda até o local do show. Muito além da minha ideia inicial, já que o que eu tinha em mente era conversar com eles somente na casa. Em um clima de total descontração, nos dirigimos até a Green Louge cerca de 45 minutos antes do começo do show.

Dentro do micro-ônibus que banda e equipe estavam, eu conversei com Carlinhos Carneiro, vocalista da banda. Trocamos muitas ideias sobre os tipos de arte, censura, projetos e tudo o que surgiu em nossas mentes durante aqueles 30 minutos.

Você confere, a seguir, esse papo maluco e cheio de informações que tivemos (e que o meu gravador conseguiu captar).

Carlinhos Carneiro brinca durante o trajeto Hotel - Green Lounge (Foto: Carol Govari Nunes)

The Backstage: Vocês tiveram algum projeto paralelo durante esses anos sem gravar disco? Porque hoje é bem comum os músicos terem mais de uma banda…

Carlinhos Carneiro: A gente sempre teve essa coisa de não ter. Tivemos algumas outras brincadeiras aí, mas não há o que convém, o papo agora é sobre a Bidê. (risos)

TB: E o que vocês ficaram fazendo nesses 6 anos, então?

CC: Em 2007 a gente fez uma pré-produção, gravamos um grupo de músicas para apresentar para uma gavadora. Apresentamos, não rolou, aí nesse mesmo ano a gente gravou o Som Brasil, da Globo. Depois em 2008, 2009 nós fizemos uns desfiles da Converse no Donna Fashion, no Iguatemi. Também em 2008 a gente fez outra pré-produção com mais músicas para o disco.

Agora nós trabalhamos com um número X de 20, 22 músicas que a gente tá lançando aos poucos que são dessas pré-produções de 2007 e 2008, além de coisas novas, emocionantes. Em 2009 a gente passou tentando fazer esse disco virar verdade, então no final de 2009 surgiu essa parceria com o Beco.

TB: Como surgiu isso? O Beco tem um Selo?

CC: Tem um Selo, sim. A agente tava precisando de alguém pra bancar as nossas loucuras e fechou essa. O Beco tem uma característica de ser da noite, de ser boate e mostrar bastante coisa dessa cena rock dançante. A Bidê sempre deu importância pro rock ser dançante, moderno. A gente nunca se preocupou em parecer com algo antigo, mas sim ser contemporâneo.

TB: Pois é, é uma coisa meio que contracultura o que vocês fazem hoje em dia, em comparação com o que é feito por outras bandas. Por exemplo, vocês fazem letras bem diferentes, divertidas, o que não é muito comum nas bandas atuais. Acho que isso nem é uma pergunta. Mas você entendeu, né? Música para se divertir. Hoje em dia é tudo muito sério…

CC: É, na verdade a gente viajou nisso recentemente porque nesse primeiro EP, que vai ser lançado em março, provavelmente, tem essas duas músicas “Me deixa desafinar” e “Tudo é preza” (que já estão na internet) que ainda têm o nosso senso de humor, a nossa ironia, mas elas são um pouco mais sérias. Para as outras músicas que vão entrar nesse EP a gente se soltou, tipo “ah, agora vamos soltar a bobageira porque deu. Tá todo mundo muito sério, todas as bandas estão sérias, até quem tá se divertindo tá sendo sério, então vamos falar bobagem!” Pode ver lá que vai ter música falando bobagem sobre a Madonna, bobagem sobre a vida de diplomatas em Budapeste… E graças a Deus a gente conseguiu se refrescar a ponto de se permitir fazer isso. E isso mostra bem essa época que a gente tá agora de curtir a banda como no começo, sabe? Achar um ponto cético e explorar ele e se divertir como quando surgiu a banda: “ah, vamos nos vestir de terno e gravata que nem executivo saindo pro almoço”, e a gente se divertia com essa coisa dos anos 80, Blitz, B 52’s, com letras que sejam crônicas bizarras. Essas opções estéticas que no começo a gente teve e curtiu muito. Durante os outros 3 discos a gente foi firmando aquela coisa que toda banda fala: “ah, vamos firmar nossa identidade”, mas na real isso é palha, porque a pessoa perde a iniciativa de ser criativo que tinha no começo da banda. Então para agora, acho que a gente tá conseguindo apertar de novo esse botão de “soltar”, fazer a coisa mais leve.

Galera no micro-ônibus, antes do show (Foto: Carol Govari Nunes)

TB: E isso que a gente tá falando de as coisas serem muito certinhas, censura e tal, que por mais que falem em liberdade de expressão, tem muita censura por aí. Rádio, TV, todos os meios de comunicação dão um jeito de barrar o que eles acham que não pode ser veiculado…

CC: É a ditadura do politicamente correto. A gente vê no Vale Tudo, no canal Viva (que passa coisas antigas da Globo), toda hora o pessoal da novela tá fumando cigarro, e hoje não pode aparecer ninguém fumando um cigarro na novela, nem tomando chopp…

TB: E você acha que isso atinge a arte?

CC: Claro que sim. A nossa liberdade tá completamente cerceada porque a forma de nos atingir não é mais simplesmente prender e dar choque nas bolas do cara – agora eles te tiram o dinheiro, te impossibilitam de trabalhar em um lugar A, B ou C. Essas formas mais inescrupulosas de cercear tua liberdade são mais perigosas. Na real, os tempos atuais são mais perigosos porque eles são aparentemente mais livres, porém a nossa liberdade tá diminuindo. O que mais? Perguntas…

TB: Deixa eu pensar…. Por que vocês dão tantas versões para o nome da banda? Por diversão, lógico! (Risos)

CC: É, porque é divertido. É um saco ter que ficar explicando. Responder sempre a mesma coisa acaba virando um negócio automático.

TB: E ainda perguntam o porquê do nome da banda? Vocês já tem 10 anos de carreira…

CC: Perguntam, perguntam toda hora. Mesmo quando não é entrevista – me perguntam no shopping!

Com a casa de shows lotada, Bidê ou Balde comandou a plateia por mais de uma hora (Foto: Carol Govari Nunes)

TB: Aí a criatividade rola solta na hora de responder…

CC: As vezes, sim. As vezes eu já tô de saco cheio e falo a verdade ou qualquer coisa. Na verdade, a gente tem banda pra não ter Alzheimer, Parkinson, então a gente fez uma banda de rock. Então a gente tem músicas e fica encaixando letras nessas músicas para desenvolver partes do cérebro que estavam paradas e assim evitar que tenhamos Alzheimer. (Risos)

TB: Tudo pela saúde!

CC: Tudo para evitar doenças degenerativas do cérebro. Bah, e eu tô tao dona de casa (alguém atrás, nessa hora, grita: “gorda de casa”), é, tô tão gorda de casa que eu descobri que tenho alergia a detergente de louça. Meus poros da mão ficam “desse tamanho”!

Carol, a gente já chegou na parte da entrevista em que a gente fala sobre traveco?

TB: Não, mas podemos chegar!

CC: Vamos parar de hipocrisia, né? Afinal, quem não gosta de um travequinho? Hoje a gente fez uma música assim: “puta que pariu, tava escuro, era traveco e ninguém viu” (Risos)

(Pausa para devaneios sobre detergente de louça e travestis….)

TB: E sobre clipes, internet, lançamentos?

CC: Então, agora a gente tá organizando tudo isso aí para a partir de março atacar massivamente, aí estamos pensando em um clipe, orçando e, se Deus quiser, vamos gravar até o fim do ano. Já estamos vendo clipe até das outras músicas, gravando também músicas do próximo EP…

Mesmo com o calor, a banda não deixou de dançar durante todo o show (Foto: Carol Govari Nunes)

TB: Vão ser quantas músicas no EP?

CC: O primeiro tem 5 músicas. O segundo ainda não sabemos. Mas estamos gravando uma que já tá demais! Não é nossa, é um cover de Plato Dvorak, ídolo nosso, um malucão lá de Porto Alegre. O cara faz músicas psicodélicas há muito tempo.

TB: E esse lance de divulgar as músicas na internet funciona bem, né?

CC: Claro, funciona muito bem. Agora com esse lançamento de “Me deixa desafinar” na rádio Atlântida, só de a gente colocar a música no site o pessoal do interior de São Paulo ligava pedindo pra ouvir a música online, quer dizer, lugar onde nem passa a rádio! Aí os caras da rádio mesmo vieram me falar: “bah, meu, tem pessoal de Goiânia, São Paulo, gente que nem é do Estado pedindo a música!”. Inclusive esse pessoal que veio de Araras (SP). Tudo isso é possibilitado pela maravilha da tecnologia.

TB: Cara, acho que é isso. Tem considerações finais? (risos)

CC: É legal que o pessoal fique ligado no nosso Twitter, também Facebook, onde a gente coloca as músicas para serem ouvidas. Vão ter uns botõezinhos diferenciados lá no Facebook, Myspace. No Youtube também a gente anda colocando (e filmando) vários vídeos divertidos, soltos. Tem o Mosquito que viaja com a gente, filma e tal, além de cuidar do site e redes sociais. A gente tá com uma visão meio executiva, empresarial, bem num clima de terceirizações. A gente pensa meio sério: “ah, vamos tentar fazer projetos para tentar um DVD, documentário sobre sei lá o que, sabe? Inventando umas ideias tipo essas coisas que a gente grava na estrada de repente não vão para o Youtube, mas viram algo para DVD, para making of. O importante é ir documentando.

E também outras coisas – a gente tem aí uns projetos para serem aprovados ou negados, tudo que envolve esse lance de imagem, internet e fazer música alucinadamente.

TB: Que tipo de projeto?

CC: Tipo esse projeto para DVD, imagens da gente na estrada, projeto para clipe feito com o pessoal do Twitter, tudo dependo de apoio de empresa, patrocínio etc. Sempre pensando em coisas para conseguir dinheiro para providenciar isso aí. Acho que é uma tendência mundial, né, assim como o Black Eyed Peas faz, só que em menor escala. Estamos estudando repertório para um próximo show que vai ter, por exemplo, projeções, iluminações muito loucas e depois passar para um outro com danças, e depois para outro com teatro. Ir crescendo, fazendo misturas e inventando, e a forma de conseguir isso é arrumando dinheiro de outras pessoas. Então quando tu perguntou “ah, o que vocês ficaram fazendo nesses 6 anos sem gravar”, foi isso. A gente ficou pensando “como vamos arranjar dinheiro para patrocinar loucuras?”, porque a graça hoje em ter uma banda não é ser de uma grande gravadora, tocar música na novela, ter música em primeiro lugar nas rádios do Brasil, claro que isso também é legal, mas além disso você consegue ganhar muita grana sendo criativo, louco, explorando o lado mais improvável da tua música. E a gente sempre teve essa característica extremamente fechada no lance de estar fazendo música. A gente quer tentar explorar essas loucuras de outros meios, e graças a Deus a gente tem facilidade para explorar insanidades de uma forma pop, bem digerida pelo público, então todo mundo se diverte. 3 ou 4 velhinhas reclamam, mas elas que vão tomar no cu delas!

* Isso é só a primeira parte: amanhã, aqui no The Backstage, eu vou contar um pouco sobre o show, set list da banda e também sobre pai e filha que vieram do interior de São Paulo para assistir o show aqui em Frederico.

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Comentários
  1. moskito diz:

    HAhaha “alergia a detergente de louça” é o código pra ativar Travecos.

  2. […] “Na verdade, a gente tem banda pra não ter Alzheimer” – brinca Carlinhos, vocalis… […]

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